{"id":1529,"date":"2025-01-07T08:43:31","date_gmt":"2025-01-07T08:43:31","guid":{"rendered":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/?page_id=1529"},"modified":"2025-01-07T14:08:04","modified_gmt":"2025-01-07T14:08:04","slug":"conclusao","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/conclusao\/","title":{"rendered":"Conclus\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h3>Conclus\u00e3o<\/h3>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para dar vida ao objeto de uma ci\u00eancia \u00e9 preciso antes de tudo nome\u00e1-lo, forjar uma metalinguagem que lhe seja especificamente dedicada. Esta \u00e9 constitu\u00edda, via de regra, por um corpo de conceitos, um m\u00e9todo de transcri\u00e7\u00e3o e um sistema de nota\u00e7\u00e3o pr\u00f3prios. \u00c9 exclusivamente por meio desse aparato simb\u00f3lico-conceitual que se define o que \u00e9 pertinente (o dom\u00ednio do objeto) e o que n\u00e3o o \u00e9 (o dom\u00ednio do abjeto). E uma vez estabelecida a metalinguagem, algo pode ser dito do objeto (pois temos as palavras), mas nada pode ser dito do abjeto (pois nos faltam as palavras).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No dom\u00ednio da fonologia, por exemplo, as no\u00e7\u00f5es de fonema, alofone, par m\u00ednimo, oposi\u00e7\u00e3o participativa, etc., assim como a nota\u00e7\u00e3o a elas associada, d\u00e3o vida \u00e0 forma da express\u00e3o lingu\u00edstica (o objeto) mas silenciam a subst\u00e2ncia da express\u00e3o lingu\u00edstica (o abjeto). Transcrever \u201ccorta\u201d e \u201cmesmo\u201d como <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\/k\u0254\u027et\u0250\/<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> e \/meSm<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u028a<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\/ tem um efeito residual n\u00e3o negligenci\u00e1vel de apagar as muitas variantes e pron\u00fancias poss\u00edveis dessas palavras, uma vez que n\u00e3o dispomos dos s\u00edmbolos necess\u00e1rios para express\u00e1-las<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. Tudo se passa como se estas pron\u00fancias n\u00e3o existissem. Portanto, o ato de dotar a ci\u00eancia com um aparato simb\u00f3lico-conceitual cumpre um papel que vai muito al\u00e9m de \u201crepresentar\u201d seu objeto. Trata-se de um m\u00e9todo sistem\u00e1tico de selecionar n\u00e3o apenas o que vemos, mas, sobretudo, o que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">n\u00e3o pode ser visto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">.\u00a0 Por outro lado, resta ao abjeto, que caprichosamente insiste em se manifestar, ser tratado com um jarg\u00e3o feito sob medida para o objeto, ou seja, com uma metalinguagem que foi concebida para escamote\u00e1-lo.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Posto isto, podemos agora introduzir o problema que nos traz aqui. Tomando a semi\u00f3tica greimasiana em seu conjunto, e mesmo em seus m\u00faltiplos desdobramentos, podemos afirmar, sem receio de errar, que seu <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">abjeto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> por excel\u00eancia \u00e9 o plano da express\u00e3o. Na triagem fundadora da semi\u00f3tica greimasiana, \u201cas estruturas textuais est\u00e3o fora do percurso gerativo do sentido, e o exame do plano da express\u00e3o n\u00e3o faz parte das [suas] preocupa\u00e7\u00f5es\u2026\u201d <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">(<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Barros, 2005, p.76)<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. Coerentemente, inexiste na semi\u00f3tica greimasiana uma terminologia t\u00e9cnica dedicada ao plano da express\u00e3o.\u00a0 Sabemos que j\u00e1 a partir dos anos 70 foram realizadas muitas e importantes pesquisas sobre a significa\u00e7\u00e3o em dom\u00ednios nos quais o plano da express\u00e3o desempenha um papel bem mais relevante do que aquele desempenhado na linguagem verbal, como a semi\u00f3tica pl\u00e1stica, musical, semi\u00f3tica da can\u00e7\u00e3o, cinema, dan\u00e7a, etc. Em todos esses dom\u00ednios o plano da express\u00e3o recebe uma aten\u00e7\u00e3o especial, evidentemente. Por\u00e9m essa aten\u00e7\u00e3o se d\u00e1 sempre e necessariamente pelo vi\u00e9s da significa\u00e7\u00e3o. Mais que isso, a significa\u00e7\u00e3o tem que estar circunscrita aos limites do percurso gerativo de sentido,<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">seja este tomado na vers\u00e3o original proposta por Greimas, seja na sua amplia\u00e7\u00e3o em profundidade proposta por Zilberberg. Na aus\u00eancia desse fato de significa\u00e7\u00e3o, a express\u00e3o \u00e9 tomada como um simples ve\u00edculo do plano do conte\u00fado e, nesse caso, n\u00e3o merece aten\u00e7\u00e3o. O plano da express\u00e3o \u00e9, simplesmente, n\u00e3o-pertinente. Essa abordagem do texto \u00e9 coerente com a triagem inaugural da semi\u00f3tica greimasiana, para a qual investigar o plano da express\u00e3o em si mesmo n\u00e3o faz o menor sentido.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pois bem, mesmo correndo o risco de fazer uma indaga\u00e7\u00e3o sem sentido algum, nos perguntamos: por que n\u00e3o investigar o plano da express\u00e3o independentemente do percurso gerativo de sentido? Pensamos que existem algumas boas raz\u00f5es para tal, mas aqui, em fun\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o que nos \u00e9 concedido, nos deteremos apenas sobre duas delas.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A primeira \u00e9 de ordem te\u00f3rica. Uma das caracter\u00edsticas definidoras de uma semi\u00f3tica \u00e9 a n\u00e3o-conformidade entre seus planos. Dessa n\u00e3o-conformidade decorre a exig\u00eancia de que tenhamos metalinguagens espec\u00edficas para cada um deles<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> e, consequentemente, que os dois planos sejam analisados separadamente um do outro. Assim,\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c&#8230;desde o momento em que, num determinado est\u00e1dio da an\u00e1lise desse objeto complexo, uma aus\u00eancia de conformidade se denuncia, o analista deve reconhecer a exist\u00eancia de duas hierarquias diferentes e, em consequ\u00eancia, procurar esgotar a an\u00e1lise completa em duas an\u00e1lises separadas. \u00c9 assim que, se o objeto de an\u00e1lise \u00e9 uma semi\u00f3tica,&#8230;.torna-se necess\u00e1rio distinguir os dois planos e analis\u00e1-los separadamente, a partir do momento em que, na an\u00e1lise do conjunto, eles revelem entre si uma diferen\u00e7a de estrutura\u2026\u201d (<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Hjelmslev, 1991, p. 54)<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Esta diretriz metodol\u00f3gica \u00e9 fundamental. \u00c9 ela que autoriza Greimas a propor a teoria semi\u00f3tica do discurso, cujo objeto est\u00e1 integralmente circunscrito ao plano do conte\u00fado<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. A an\u00e1lise deste, portanto, independe da an\u00e1lise do plano da express\u00e3o. Dado que os planos s\u00e3o apenas entidades formais<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, o que \u00e9 v\u00e1lido para um, \u00e9 v\u00e1lido para o outro. Em suma, a considerarmos o argumento hjelmsleviano, n\u00e3o h\u00e1 como fugir de uma an\u00e1lise independente do plano da express\u00e3o, realizada com metalinguagem pr\u00f3pria.\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A segunda raz\u00e3o \u00e9 de ordem emp\u00edrica. As diferen\u00e7as entre as linguagens n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0 materialidade da express\u00e3o (as ordens sensoriais visual, auditiva, t\u00e1til, etc), mas tamb\u00e9m ao grau de complexidade apresentado pelas estruturas que comp\u00f5em o plano da express\u00e3o de cada uma delas. Sob esse aspecto, as linguagens verbal e musical ocupam posi\u00e7\u00f5es diametralmente opostas.\u00a0 Na primeira, o plano da express\u00e3o \u00e9 quase transparente, apresenta estruturas pouco r\u00edgidas, basicamente restritas aos seus elementos terminais. Embora as s\u00edlabas (cadeia segmental) e os acentos (cadeia suprasegmental) da cadeia da fala sejam fortemente estruturados, a liberdade de combina\u00e7\u00e3o \u00e9 praticamente ilimitada quando ascendemos na hierarquia aos elementos mais extensos. Essa maleabilidade constitutiva do plano da express\u00e3o verbal \u00e9 necess\u00e1ria para que qualquer conte\u00fado possa ser expresso.\u00a0 O papel do plano da express\u00e3o verbal n\u00e3o consiste apenas em veicular a significa\u00e7\u00e3o, mas em veicular <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">qualquer<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> significa\u00e7\u00e3o poss\u00edvel ou imagin\u00e1vel, e, por isso, sua estrutura n\u00e3o pode ser um obst\u00e1culo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da significa\u00e7\u00e3o. Ao definir a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">l\u00edngua <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">como uma \u201cparadigm\u00e1tica cujos paradigmas se manifestam por <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">todos<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> os sentidos\u201d <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">(<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Hjelmslev, 1975, p.115)<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, ou seja, como uma semi\u00f3tica capaz de traduzir quaisquer outras semi\u00f3ticas, Hjelmslev se pergunta da raz\u00e3o de ser dessa tradutibilidade ilimitada das l\u00ednguas naturais, e avan\u00e7a a hip\u00f3tese de que \u201ca raz\u00e3o disso \u00e9 a possibilidade ilimitada de forma\u00e7\u00e3o de signos e as regras bastante livres que regem a forma\u00e7\u00e3o de unidades de grande extens\u00e3o\u201d (Hjelmslev, 1975, p.115).<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o se pode comparar essa t\u00eanue estrutura da cadeia da fala com a complexidade do plano da express\u00e3o musical. Incapaz de denotar qualquer sentido que seja, a m\u00fasica depende visceralmente de uma forte estrutura\u00e7\u00e3o para, simplesmente, n\u00e3o perecer. A estrutura \u00e9 a raz\u00e3o de ser da m\u00fasica. S\u00e3o por raz\u00f5es de estrutura, qualquer que seja esta (r\u00edtmica, harm\u00f4nica, mel\u00f3dica, timbr\u00edstica, etc) que um motivo musical ganha sobrevida e n\u00e3o desaparece do nosso horizonte perceptivo, como ocorre com aquela palavra que acabamos de pronunciar<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">.\u00a0 Padr\u00f5es (ou seja, estruturas recorrentes) harm\u00f4nicos e timbr\u00edsticos explicam-se pelas propriedades ac\u00fasticas do som e da fisiologia da percep\u00e7\u00e3o humana. \u00c9 claro que estruturas e padr\u00f5es ser\u00e3o impregnados de conota\u00e7\u00f5es, ou seja, de significa\u00e7\u00f5es. Mas a condi\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">sine qua non<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> para esse recobrimento conotativo \u00e9 a exist\u00eancia de uma estrutura, uma \u201centidade aut\u00f4noma de depend\u00eancias internas\u201d (<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Hjelmslev, 1991, p.115)<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> pr\u00f3pria do plano da express\u00e3o. Se uma crian\u00e7a de tr\u00eas anos martela notas ao piano, ela n\u00e3o est\u00e1 criando uma melodia, mas uma sequ\u00eancia ca\u00f3tica de notas musicais destitu\u00edda de estrutura. E sem essa estrutura o que temos \u00e9 uma massa amorfa inescrut\u00e1vel.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"3\">\n<li><b> As coer\u00e7\u00f5es do plano da express\u00e3o musical<\/b><\/li>\n<\/ol>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Consideremos por ora que as raz\u00f5es apresentadas sejam suficientes para justificar uma an\u00e1lise do plano da express\u00e3o que n\u00e3o passe previamente pelo crivo do percurso gerativo de sentido. Nesse caso, qual seria o aparato simb\u00f3lico-conceitual adequado \u00e0 sua descri\u00e7\u00e3o? A resposta a esta quest\u00e3o depende de considera\u00e7\u00f5es sobre a forma e a subst\u00e2ncia. Por um lado, dentro do paradigma estruturalista, toda metalinguagem deve submeter-se a certos princ\u00edpios formais bem estabelecidos. O princ\u00edpio do empirismo (n\u00e3o-contradi\u00e7\u00e3o, exaustividade e simplicidade da descri\u00e7\u00e3o), o princ\u00edpio da an\u00e1lise e a pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de iman\u00eancia, s\u00e3o alguns dos norteadores epistemol\u00f3gicos conhecidos de todos n\u00f3<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\"> semioticistas. Nada temos a acrescentar a esse aspecto, uma vez que estes princ\u00edpios aplicam-se universalmente a qualquer semi\u00f3tica, em qualquer de seus planos. Por outro lado, a subst\u00e2ncia da express\u00e3o \u00e9 determinante na maneira como ser\u00e1 constru\u00edda a metalinguagem. Dado que a subst\u00e2ncia do plano da express\u00e3o musical \u00e9 o som &#8211; um fen\u00f4meno f\u00edsico, portanto -, o m\u00e9todo de transcri\u00e7\u00e3o deve dar conta n\u00e3o apenas das rela\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia observadas nas formas musicais, ele deve dar conta tamb\u00e9m das varia\u00e7\u00f5es na subst\u00e2ncia da express\u00e3o. Essas varia\u00e7\u00f5es somente podem ser descritas com o recurso da matem\u00e1tica.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 necess\u00e1rio fazer uma breve digress\u00e3o para esclarecer e justificar esta \u00faltima afirma\u00e7\u00e3o, que pode parecer extravagante \u00e0 primeira vista. Vimos na introdu\u00e7\u00e3o a este texto que a semi\u00f3tica operou um ajuste de percurso de modo a dar conta das continuidades na an\u00e1\u013aise da gera\u00e7\u00e3o de sentido nos textos. Fundamentalmente, tal ajuste te\u00f3rico se deu pelo reconhecimento de um n\u00edvel tensivo subjacente ao n\u00edvel fundamental, e se refletiu na metalinguagem pela incorpora\u00e7\u00e3o do gr\u00e1fico tensivo em substitui\u00e7\u00e3o ao quadrado semi\u00f3tico, al\u00e9m de um renovado vocabul\u00e1rio t\u00e9cnico. A teoria tensiva de Zilberberg n\u00e3o apenas introduziu a quantifica\u00e7\u00e3o na semi\u00f3tica, ela fez da quantifica\u00e7\u00e3o sua pedra angular. Os grandes avan\u00e7os na pesquisa sobre a significa\u00e7\u00e3o proporcionados por essa mudan\u00e7a de perspectiva fizeram da quantifica\u00e7\u00e3o semi\u00f3tica \u201ca\u201d ferramenta de an\u00e1lise do texto, sobretudo do texto po\u00e9tico. Existem raz\u00f5es para crer, no entanto, que esta n\u00e3o seja a ferramenta mais adequada para a an\u00e1lise do plano da express\u00e3o musical.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vejamos esse problema em detalhes. Como afirma Greimas, \u201ca percep\u00e7\u00e3o \u00e9 o lugar onde se situa a apreens\u00e3o da significa\u00e7\u00e3o\u201d (<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Greimas, 1966, p.8)<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. Tudo o que adentra nosso campo de presen\u00e7a, o \u201cdom\u00ednio esp\u00e1cio-temporal em que se exerce a percep\u00e7\u00e3o\u201d (<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Fontanille e Zilberberg, 2001, p.123<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">), \u00e9 dotado de um grau de intensidade: a sensa\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica de um objeto, a altura de um tom musical, a velocidade de um acontecimento, enfim, toda e qualquer percep\u00e7\u00e3o \u00e9 suscet\u00edvel ao mais e ao menos. Todas s\u00e3o medidas por seu grau de intensidade, por essa raz\u00e3o s\u00e3o chamadas de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">grandezas intensivas<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma caracter\u00edstica crucial das grandezas intensivas e, por extens\u00e3o, das nossas percep\u00e7\u00f5es, \u00e9 a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">incomensurabilidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Incomensur\u00e1vel \u00e9 o que n\u00e3o tem medida comum com um outro termo. Duas percep\u00e7\u00f5es s\u00e3o incomensur\u00e1veis porque lhes falta um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">termo de compara\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, um ponto de refer\u00eancia comum. Segundo Lalande,<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cIntensidade \u00e9 a caracter\u00edstica daquilo que admite os estados de mais ou de menos, mas de tal forma que a diferen\u00e7a entre dois estados n\u00e3o seja, ela pr\u00f3pria, um grau daquilo que \u00e9 assim suscet\u00edvel de aumento ou de diminui\u00e7\u00e3o: por exemplo, um sentimento de temor pode diminuir ou aumentar, mas a <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">diferen\u00e7a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> entre um temor ligeiro e um temor mais forte n\u00e3o \u00e9 um n\u00edvel de temor que possa ser comparado aos outros, como a diferen\u00e7a entre dois comprimentos ou entre dois n\u00fameros \u00e9 um comprimento ou um n\u00famero que tem o seu lugar na escala de grandezas da mesma esp\u00e9cie.\u201d (<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Lalande, 1996, p. 582).<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Uma analogia visual, um tanto artificial, admitamos (ver Figura 1), nos ajudar\u00e1 a esclarecer este ponto.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Figura 1<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Se nos perguntarmos sobre o efeito de sentido produzido pelas linhas da figura acima, podemos afirmar, sem que necessitemos de qualquer meio de medida, que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 menor que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">b<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 menor que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">c<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">b<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 menor que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">c<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, etc. No intuito de precisar ainda mais nossa percep\u00e7\u00e3o, podemos tamb\u00e9m afirmar que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 muito menor que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">b<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 muito menor que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">c<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, e assim por diante. H\u00e1 continuidade entre <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">b<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">c<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, ou seja, \u00e9 poss\u00edvel transitar indefinidamente, por aumentos ou diminui\u00e7\u00f5es graduais, entre os p\u00f3los de uma categoria, sem <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">solu\u00e7\u00e3o de continuidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Um dos m\u00e9ritos da semi\u00f3tica tensiva de Claude Zilberberg consistiu em extrair todas as consequ\u00eancias desse modo de ser da nossa apreens\u00e3o sens\u00edvel, sistematiz\u00e1-lo em dois grandes eixos, os \u201cestados de alma\u201d (o eixo da intensidade<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">) e os \u201cestados de coisas\u201d (o eixo da extensidade) e, a partir desse movimento, deduzir uma gram\u00e1tica do sentido, capaz de abarcar um sem n\u00famero de nuances do texto que n\u00e3o eram capt\u00e1veis com os recursos da semi\u00f3tica greimasiana, com sua triagem do descont\u00ednuo, do l\u00f3gico, do que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">n\u00e3o admite grada\u00e7\u00e3o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Vejamos agora porque os valores do plano da express\u00e3o n\u00e3o podem ser mensurados desta maneira.\u00a0<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Figura 2<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na figura 2 retornamos \u00e0s mesmas linhas <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">b<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> e <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">c<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, por\u00e9m agora atribuindo arbitrariamente ao segmento <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">a condi\u00e7\u00e3o de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">unidade de medida<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Assim, n\u00e3o diremos simplesmente que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">b <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00e9 maior que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, diremos que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">b <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00e9 seis vezes maior que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">e que <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">c <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u00e9 sete vezes maior que a, e assim por diante. As figuras 1 e 2 ilustram, ainda que de maneira enviesada, as rela\u00e7\u00f5es entre grandezas intensivas, continuidade e incomensurabilidade, de um lado, e grandezas extensivas, descontinuidade e comensurabilidade, de outro. \u00a0 Qualquer que seja o objeto de nossa percep\u00e7\u00e3o, interna ou externa, ele somente pode ser medido em termos de grandezas intensivas.<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">O mundo fenom\u00eanico, base material do plano da express\u00e3o, ao contr\u00e1rio, faz-se intelig\u00edvel por meio de grandezas extensivas. Gra\u00e7as a essa propriedade, diz Kant, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a matem\u00e1tica \u00e9 aplic\u00e1vel aos objetos da experi\u00eancia, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">ao substrato que serve de plano da express\u00e3o das semi\u00f3ticas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em suma, a subst\u00e2ncia do conte\u00fado deixa-se traduzir em grandezas intensivas, cont\u00ednuas e sujeitas \u00e0 grada\u00e7\u00e3o, e apenas a elas. N\u00e3o h\u00e1 como traduzir extensivamente a significa\u00e7\u00e3o, ou seja, n\u00e3o h\u00e1 como matematizar o plano do conte\u00fado. A subst\u00e2ncia da express\u00e3o, por outro lado, sempre poder\u00e1 ser traduzida em grandezas extensivas, ou seja, em n\u00fameros. Portanto, do ponto de vista metodol\u00f3gico, \u00e9 crucial separar plano do conte\u00fado e plano da express\u00e3o, considerando as coer\u00e7\u00f5es espec\u00edficas da subst\u00e2ncia de cada um desses planos, ainda que estes se sincretizem no texto pela semiose.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Tomemos, por exemplo, o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">andamento<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Enquanto efeito de sentido (plano do conte\u00fado, portanto) o andamento \u00e9 uma grandeza intensiva e, caso seja quantificada, o ser\u00e1 com a metalinguagem da semi\u00f3tica tensiva. N\u00e3o h\u00e1 como quantificar matematicamente a velocidade de um acontecimento, obviamente. No entanto, na qualidade de fen\u00f4meno do plano da express\u00e3o, o andamento pode ser matematizado. Mais que isso, ele deve s\u00ea-lo porque pela matem\u00e1tica \u00e9 poss\u00edvel descrev\u00ea-lo de modo n\u00e3o-contradit\u00f3rio, exaustivo e simples.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A prop\u00f3sito, a matematiza\u00e7\u00e3o do plano da express\u00e3o \u00e9 prevista por Hjelmslev:<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u201c<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">A priori<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> n\u00e3o parece inimagin\u00e1vel que toda ci\u00eancia que procurasse realizar os objetivos de que nos fizemos defensores em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 lingu\u00edstica chegue, ao fim da dedu\u00e7\u00e3o, a encontrar-se diante de uma situa\u00e7\u00e3o final onde n\u00e3o se pode mais distinguir relacionamentos de causa e efeito. S\u00f3 restar\u00e1 ent\u00e3o a possibilidade \u00fanica de um tratamento estat\u00edstico das varia\u00e7\u00f5es, semelhante \u00e0quele que Eberhard Zwirner procurou estabelecer sistematicamente no que diz respeito \u00e0 express\u00e3o fon\u00e9tica das l\u00ednguas. A condi\u00e7\u00e3o para que esta experi\u00eancia seja levada a cabo \u00e9 que o objeto deste tratamento \u201cfonom\u00e9trico\u201d n\u00e3o seja uma classe de sons obtida indutivamente, mas sim uma variedade localizada do mais alto grau obtida dedutivamente.\u201d (<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Hjelmslev, 1975, p. 87)<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conclus\u00e3o Para dar vida ao objeto de uma ci\u00eancia \u00e9 preciso antes de tudo nome\u00e1-lo, forjar uma metalinguagem que lhe seja especificamente dedicada. Esta \u00e9 constitu\u00edda, via de regra, por um corpo de conceitos, um m\u00e9todo de transcri\u00e7\u00e3o e um sistema de nota\u00e7\u00e3o pr\u00f3prios. \u00c9 exclusivamente por meio desse aparato simb\u00f3lico-conceitual que se define o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-1529","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1529","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1529"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1529\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1554,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/1529\/revisions\/1554"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1529"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}