{"id":327,"date":"2022-03-13T00:34:01","date_gmt":"2022-03-13T00:34:01","guid":{"rendered":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/?page_id=327"},"modified":"2025-01-22T08:49:23","modified_gmt":"2025-01-22T08:49:23","slug":"transcricao","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/transcricao\/","title":{"rendered":"Transcri\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<h2>TRANSCRI\u00c7\u00c3O<\/h2>\n<p>Diz o conhecido aforismo saussuriano que \u201c\u2026\u00e9 o ponto de vista que cria o objeto\u201d, ou seja, a partir de um mesmo objeto emp\u00edrico, diferentes objetos te\u00f3ricos podem ser criados, a depender unicamente do ponto de vista adotado. O estabelecimento de um dom\u00ednio cient\u00edfico depende portanto de uma triagem do dado bruto de origem submetido \u00e0 observa\u00e7\u00e3o. O objeto emp\u00edrico da investiga\u00e7\u00e3o que ora iniciamos \u00e9 a can\u00e7\u00e3o popular. O ponto de vista a partir do qual esse objeto emp\u00edrico \u00e9 observado \u00e9 o da significa\u00e7\u00e3o<em>.\u00a0<\/em>A proje\u00e7\u00e3o desse ponto de vista sobre o objeto emp\u00edrico can\u00e7\u00e3o popular resulta num objeto te\u00f3rico, a\u00a0<em>palavra cantada<\/em>.<\/p>\n<p>O objeto te\u00f3rico \u00e9, por princ\u00edpio, uma redu\u00e7\u00e3o do objeto emp\u00edrico. Afinal, todo ponto de vista \u00e9 sempre uma mirada, uma delimita\u00e7\u00e3o, ou como preferimos, uma triagem a que o objeto emp\u00edrico \u00e9 submetido. Para que a pergunta sobre a significa\u00e7\u00e3o possa ser respondida com objetividade \u00e9 necess\u00e1rio que selecionemos no objeto emp\u00edrico apenas aqueles elementos pertinentes para a constru\u00e7\u00e3o do sentido. Em outras palavras, submetemos o objeto a uma triagem que separar\u00e1 aquilo que \u00e9 pertinente daquilo que n\u00e3o \u00e9.\u00a0\u00a0\u00c9 esse processo de triagem que denominamos <em>transcri\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p>Toda transcri\u00e7\u00e3o \u00e9 seletiva. Fundada numa metalinguagem especificamente desenvolvida para tal, constitu\u00edda de um corpo de conceitos e de um sistema de nota\u00e7\u00e3o pr\u00f3prios, a transcri\u00e7\u00e3o extrai (ou deriva) do objeto emp\u00edrico os elementos pertinentes para a constru\u00e7\u00e3o do sentido e, assim, cria um objeto te\u00f3rico. \u00c9 o m\u00e9todo de transcri\u00e7\u00e3o que fornece a mat\u00e9ria prima da an\u00e1lise. A an\u00e1lise da palavra cantada requer uma metalinguagem que lhe seja especificamente dedicada, um sistema de conceitos que nos permita construir hip\u00f3teses sobre a maneira pela qual a materialidade da palavra e da m\u00fasica, sincretizadas na can\u00e7\u00e3o, criam efeitos de significa\u00e7\u00e3o pr\u00f3prios, efeitos que ultrapassam aqueles criados pela palavra e pela m\u00fasica isoladamente.<\/p>\n<p>Esta \u00e9 constitu\u00edda, via de regra, por um corpo de conceitos, um m\u00e9todo de transcri\u00e7\u00e3o e um sistema de nota\u00e7\u00e3o pr\u00f3prios. \u00c9 exclusivamente por meio desse aparato simb\u00f3lico-conceitual que se define o que \u00e9 pertinente (o dom\u00ednio do objeto) e o que n\u00e3o o \u00e9 (o dom\u00ednio do abjeto). E uma vez estabelecida a metalinguagem, algo pode ser dito do objeto (pois temos as palavras), mas nada pode ser dito do abjeto (pois nos faltam as palavras).<\/p>\n<p>Essa delimita\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para que possamos delinear a problematiza\u00e7\u00e3o que pode ser feita sobre o objeto, e, a partir desta,\u00a0 a diretriz metodol\u00f3gica mais apropriada. Assim, a delimita\u00e7\u00e3o do objeto te\u00f3rico determina a metodologia de an\u00e1lise Ainda que provis\u00f3ria (uma vez que funda-se numa hip\u00f3tese a ser desenvolvida adiante), a defini\u00e7\u00e3o que propomos procura ser fiel a esse prop\u00f3sito:<\/p>\n<p>Palavra cantada \u00e9 uma variante da palavra falada na qual os supressegmentos s\u00e3o em dispostos em duas camadas, uma camada pros\u00f3dica e uma camada mel\u00f3dica<em>.<\/em><\/p>\n<p>A partir dessa defini\u00e7\u00e3o fica claro que investigar a palavra cantada consiste em descrever a constitui\u00e7\u00e3o de tr\u00eas cadeias,\u00a0<em>sil\u00e1bica<\/em>,\u00a0<em>pros\u00f3dica<\/em>\u00a0e\u00a0<em>mel\u00f3dica,\u00a0<\/em>e a intera\u00e7\u00e3o entre estas. Como veremos adiante, a\u00a0 forma final da cadeia sil\u00e1bica \u00e9 determinada, em \u00faltima inst\u00e2ncia, pela m\u00fatua interfer\u00eancia que pros\u00f3dia e melodia exercem entre si.<\/p>\n<p>Esse interfer\u00eancia decorre da natureza comum compartilhada por ambas. Pros\u00f3dia e melodia nada mais s\u00e3o que diferentes maneiras de estruturar o mesmo material sonoro. Sons com altura, dura\u00e7\u00e3o e intensidade constituem a mat\u00e9ria prima de ambas Ou seja, na palavra cantada, a pros\u00f3dia (o tom, o acento e a entoa\u00e7\u00e3o) \u00e9 permutada pela melodia (a nota, o pulso r\u00edtmico, e o contorno mel\u00f3dico. Nada se perde, nada se ganha, apenas que muda o modo como certos elementos comuns \u00e0 fala e ao canto \u2013 os tra\u00e7os\u00a0<em>altura, dura\u00e7\u00e3o<\/em>\u00a0e\u00a0<em>intensidade<\/em>\u00a0\u2013 se organizam em unidades hierarquicamente superiores, e que s\u00e3o espec\u00edficas da pros\u00f3dia (fala) e da melodia (canto) enquanto sistemas distintos.<\/p>\n<ul>\n<li>\n<ul>\n<li>\n<ol>\n<li>Numa primeira aproxima\u00e7\u00e3o os elementos pertinentes dividem-se em duas classes:\n<ul>\n<li>(i) constituintes mel\u00f3dicos (nota, pulso r\u00edtmico, c\u00e9lula harm\u00f4nica, cad\u00eancia) e<\/li>\n<li>(ii) constituintes pros\u00f3dicos (s\u00edlaba, p\u00e9, frase fonol\u00f3gica, frase entoacional);<\/li>\n<\/ul>\n<\/li>\n<\/ol>\n<\/li>\n<\/ul>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>Tome-se, por exemplo, apenas o tra\u00e7o\u00a0<em>altura<\/em><em>.<\/em>\u00a0Na fala, a altura \u00e9 a categoria definidora da\u00a0<em>entoa\u00e7\u00e3o<\/em>, que, no portugu\u00eas brasileiro, pode ser descrita como um sistema de dois tons, alto (H) e baixo (L), a partir dos quais formam-se eventos tonais (monotonais ou bitonais), os quais podem constituir tons de fronteira (L%, H%), acentos tonais (L*, H*) ou tons de constituinte (L-, H-). Na m\u00fasica, diferentemente, a altura \u00e9 a categoria definidora do\u00a0<em>contorno mel\u00f3dico<\/em>, e organiza-se num sistema de doze tons (escala crom\u00e1tica), os quais estruturam-se em c\u00e9lulas mel\u00f3dicas, que por sua vez constituem frases mel\u00f3dicas. \u00c9 claro que a dura\u00e7\u00e3o e a intensidade s\u00e3o tamb\u00e9m objeto de uma estrutura\u00e7\u00e3o semelhante e, juntamente com a entoa\u00e7\u00e3o, comp\u00f5em o que conhecemos como pros\u00f3dia (fala) e melodia (m\u00fasica).<\/p>\n<p>Desse modo, a hip\u00f3tese de que a palavra cantada seja uma variante da palavra falada justifica-se porque qualquer cadeia segmental pode ser recoberta por uma cadeia suprassegmental pros\u00f3dica (quando ent\u00e3o torna-se fala) ou mel\u00f3dica (quando ent\u00e3o torna-se canto) ou, ainda, por uma sobreposi\u00e7\u00e3o de ambas, fato muito comum observado na m\u00fasica popular brasileira. Essa hip\u00f3tese parece congruente com o fato de\u00a0que\u00a0n\u00e3o h\u00e1 palavra cantada na qual a pros\u00f3dia n\u00e3o seja afetada pela melodia ou em que a melodia n\u00e3o seja modificada pela pros\u00f3dia. Da\u00ed a pertin\u00eancia da quest\u00e3o de saber se essa m\u00fatua interfer\u00eancia est\u00e1 ou n\u00e3o sujeita a uma\u00a0<em>gram\u00e1tica<\/em>. Numa an\u00e1lise\u00a0preliminar de cerca de uma centena de\u00a0can\u00e7\u00f5es populares, verificamos que\u00a0a palavra cantada obedece a certas\u00a0condi\u00e7\u00f5es de boa forma\u00e7\u00e3o\u00a0que constituem o que poder\u00edamos chamar de uma\u00a0<em>quase<\/em>-gram\u00e1tica, um conjunto de regras para o alinhamento ou associa\u00e7\u00e3o entre constituintes pros\u00f3dicos e unidades mel\u00f3dicas. Essas\u00a0an\u00e1lises indicam que\u00a0h\u00e1\u00a0um sistema subjacente \u00e0 intera\u00e7\u00e3o entre proemin\u00eancias lingu\u00edsticas (o acento lexical, tonal e entoacional) e as promin\u00eancias mel\u00f3dicas (a marca\u00e7\u00e3o do pulso, o n\u00facleo das c\u00e9lulas r\u00edtmicas e o n\u00facleo das c\u00e9lulas harm\u00f4nicas).<\/p>\n<p>Pela natureza de seu objeto uma Gram\u00e1tica da Palavra Cantada situa-se numa regi\u00e3o de fronteira entre a pros\u00f3dia, a musicologia gerativa e a semi\u00f3tica. Toma como refer\u00eancia da primeira a teoria dos dom\u00ednios pros\u00f3dicos da fonologia pros\u00f3dica de Nespor&amp;Vogel (1986) e a fonologia entoacional de Ladd (1996); da segunda, ret\u00e9m certas assun\u00e7\u00f5es sobre as estruturas musicais hier\u00e1rquicas (Schenker, 1979 e Lerdahl &amp; Jackendoff, 1983) e sobre a chamada\u00a0<em>phrase structure analysis<\/em>\u00a0(Schoenberg, 1996); por fim, lingu\u00edstica e musicologia s\u00e3o integradas \u00e0 semi\u00f3tica (Tatit, 1996),\u00a0uma vez que o objetivo \u00faltimo da investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 compreender como o sentido mel\u00f3dico \u00e9 engendrado tomando por base de an\u00e1lise a can\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>TRANSCRI\u00c7\u00c3O Diz o conhecido aforismo saussuriano que \u201c\u2026\u00e9 o ponto de vista que cria o objeto\u201d, ou seja, a partir de um mesmo objeto emp\u00edrico, diferentes objetos te\u00f3ricos podem ser criados, a depender unicamente do ponto de vista adotado. O estabelecimento de um dom\u00ednio cient\u00edfico depende portanto de uma triagem do dado bruto de origem [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-327","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/327","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=327"}],"version-history":[{"count":70,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/327\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":795,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/327\/revisions\/795"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=327"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}