{"id":339,"date":"2022-03-13T00:36:36","date_gmt":"2022-03-13T00:36:36","guid":{"rendered":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/?page_id=339"},"modified":"2025-01-06T10:11:51","modified_gmt":"2025-01-06T10:11:51","slug":"c-php","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/c-php\/","title":{"rendered":"(C) \u2014 (PhP)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\">C\u00e9lula harm\u00f4nica(C) \u2014 Frase fonol\u00f3gica (PhP)<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o pulso-acento, fundada em crit\u00e9rios exclusivamente r\u00edtmicos, explica apenas parcialmente a distribui\u00e7\u00e3o de proemin\u00eancias na can\u00e7\u00e3o. Por exemplo, no primeiro verso de <em>Cajuina<\/em>, as s\u00edlabas <em>MOS<\/em> e <em>TI<\/em> claramente se destacam das demais.<\/p>\n<p><em>Caju\u00edna<\/em> (Caetano Veloso)<\/p>\n<pre>#001.01\r\nS\u00edlaba        e  xis tir MOS  a  que se  RA  que se  des TI          na\r\n              |   |   |   |   |   |   |   |   |   |   |   |   *   *   |   *\r\nNota          N   N   N   N   N   N   N   N   N   N   N   N           N\r\nPulso                     P               P               P               P       \r\n<\/pre>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O deslocamento de acento na palavra existirmos <em>e.xis.TIR.mos<\/em> =&gt; <em>e.xis.tir.MOS<\/em> ocorre porque a s\u00edlaba <em>MOS<\/em> se associa a um pulso, e este atrai o acento. A quest\u00e3o reside em saber por que o acento desloca-se para a direita <em>MOS<\/em> e n\u00e3o para a esquerda <em>XIS<\/em>, se ambas as s\u00edlabas est\u00e3o igualmente associadas ao pulso. Em princ\u00edpio, n\u00e3o h\u00e1 direcionalidade no deslocamento acentual, de modo que <em>XIS<\/em> e <em>MOS<\/em> deveriam ser igualmente acentuadas. A resposta \u00e9 que a s\u00edlaba <em>MOS<\/em> (assim como <em>TI<\/em>) destaca-se das outras doze s\u00edlabas do verso porque est\u00e1 associada ao n\u00facleo de uma c\u00e9lula harm\u00f4nica. Para tornar claro o uso que se far\u00e1 deste conceito \u00e9 necess\u00e1ria uma breve recens\u00e3o da literatura sobre o que os music\u00f3logos chamam de <em>phrase structure analysis<\/em>.<\/p>\n<p><em>Phrase Structure Analysis<\/em><\/p>\n<p>Uma melodia n\u00e3o \u00e9 uma cadeia estoc\u00e1stica de notas. Estas agrupam-se em pequenas unidades recorrentes que recebem diferentes denomina\u00e7\u00f5es: grupo, motivo, inciso ou ainda c\u00e9lula, termo adotado aqui. Tais unidades recorrentes n\u00e3o apenas segmentam o fio mel\u00f3dico. Elas estruturam a melodia tornando-a algo compreens\u00edvel. Como diz Schoenberg, \u201c&#8230;s\u00f3 se pode compreender aquilo que se pode reter na mente, e as limita\u00e7\u00f5es da mente humana nos impedem de memorizar algo que seja muito extenso. Desse modo, a subdivis\u00e3o apropriada facilita a compreens\u00e3o e determina a forma\u201d.(1996:27-28).<\/p>\n<p>A c\u00e9lula \u00e9 uma unidade, seja do ponto de vista anal\u00edtico, seja do ponto de vista sint\u00e9tico, que resulta de uma rela\u00e7\u00e3o de depend\u00eancia. Do ponto de vista anal\u00edtico, a c\u00e9lula \u00e9 uma unidade, uma incis\u00e3o no cont\u00ednuo sonoro, o lugar de uma divis\u00e3o no devir mel\u00f3dico:<\/p>\n<blockquote><p>\u201cEntende-se por inciso (do latim incisus) [leia-se c\u00e9lula] toda incis\u00e3o, todo corte praticado na continuidade sonora. De modo que, a rigor, \u00e9 o sil\u00eancio que determina o inciso. Sem d\u00favida, pode-se admitir por extens\u00e3o de sentido que o inciso n\u00e3o se refere tanto ao sil\u00eancio quanto ao fragmento musical isolado na an\u00e1lise r\u00edtmica, esteja ou n\u00e3o este fragmento separado por sil\u00eancios do que o rodeia. Tal \u00e9 o conceito mais difundido desde o s\u00e9culo passado, e o que se seguir\u00e1 nessa obra. Portanto, o inciso pode ter uma, duas ou mais notas; sua \u00fanica determina\u00e7\u00e3o \u00e9 o fato de estar isolado do entorno.\u201d(Quir\u00f3s, :77).<\/p><\/blockquote>\n<p>Uma c\u00e9lula constr\u00f3i-se como unidade ao demarcar um entorno. Tal demarca\u00e7\u00e3o \u00e9 mais evidente quando contrasta som e sil\u00eancio. No entanto, as c\u00e9lulas podem tamb\u00e9m ser ligadas umas \u00e0s outras sem solu\u00e7\u00e3o de continuidade \u2013 notadamente em melodias instrumentais para cordas e teclado, por exemplo. Neste caso, a demarca\u00e7\u00e3o e os limites desaparecem. Se ainda assim pode-se falar em c\u00e9lula \u00e9 porque esta \u00e9 tamb\u00e9m uma unidade do ponto de vista sint\u00e9tico: a c\u00e9lula \u00e9 o lugar do encontro de contrastes, como pr\u00f3tase\/ap\u00f3dose, impulso\/repouso, tens\u00e3o\/distens\u00e3o etc.<\/p>\n<blockquote><p>\u201cO inciso [leia-se a c\u00e9lula] traz, pois, em si, a causa intr\u00ednseca, vital de sua unidade. Entre a Arsis inicial do inciso e a sua Thesis final, desenvolve-se uma corrente intensiva, com sua PR\u00d3TASE, seu p\u00f3lo e a sua AP\u00d3DOSE. \u00c9 do p\u00f3lo, como dum foco central, que partem e se repartem por todo inciso as nuan\u00e7as expressivas de conjunto e de detalhe.\u201d(Porto,:44).<\/p><\/blockquote>\n<p>Considerando-se a totalidade da melodia (ponto de vista anal\u00edtico), a c\u00e9lula \u00e9 uma unidade de segmenta\u00e7\u00e3o. Se, ao contr\u00e1rio, parte-se das grandezas musicais elementares, as notas (ponto de vista sint\u00e9tico), a c\u00e9lula \u00e9 o lugar onde se realizam os contrastes tensivos entre os p\u00f3los das categorias mel\u00f3dicas, intensidade (forte x fraco), altura (grave x agudo) e dura\u00e7\u00e3o (longo x breve). \u00c9 preciso lembrar que tens\u00e3o ou repouso s\u00e3o efeitos de sentido criados por uma configura\u00e7\u00e3o sintagm\u00e1tica das grandezas musicais primitivas no interior da c\u00e9lula. A c\u00e9lula sintetiza tend\u00eancias contrastantes e cria o efeito de uma transforma\u00e7\u00e3o tens\u00e3o\u2014distens\u00e3o, impulso\u2014repouso. Esse \u201cciclo\u201d faz da c\u00e9lula uma unidade do organismo musical.<\/p>\n<blockquote><p>\u201c&#8230;assim como a menor \u2018unidade\u2019 anat\u00f4mica e funcional de todo organismo \u00e9 a c\u00e9lula, a menor \u2018unidade\u2019 sonora e qualitativa de toda m\u00fasica \u00e9 o ritmo elementar. Coloquei unidade entre aspas para ressaltar que ela se refere ao menor organismo complexo poss\u00edvel, e n\u00e3o a uma unidade real, num\u00e9rica. N\u00e3o \u00e9 de estranhar, portanto, que se tenha denominado o ritmo elementar de c\u00e9lula r\u00edtmica\u201d.(Quir\u00f3s, :75).<\/p><\/blockquote>\n<p>O termo c\u00e9lula ser\u00e1 empregado aqui com um sentido mais restrito. Para isso consideraremos a c\u00e9lula sob tr\u00eas pontos de vista: sua estrutura interna, o princ\u00edpio de itera\u00e7\u00e3o que estabelece sua recorr\u00eancia e sua fun\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica. Quanto \u00e0 estrutura interna, as c\u00e9lulas s\u00e3o cadeias de notas das quais uma \u00fanica se destaca por:<\/p>\n<ul>\n<li style=\"list-style-type: none;\">\n<ul>(i) ter maior dura\u00e7\u00e3o relativa;<\/ul>\n<\/li>\n<\/ul>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ul>(ii) ter maior intensidade relativa;<\/ul>\n<p>Conv\u00e9m frisar que a op\u00e7\u00e3o de denominar um grupo de notas assim formado de c\u00e9lula \u2013 e n\u00e3o inciso, grupo r\u00edtmico ou motivo, igualmente poss\u00edveis \u2013 n\u00e3o reflete nenhuma inclina\u00e7\u00e3o te\u00f3rica, mas um fato de ordem pr\u00e1tica na an\u00e1lise da can\u00e7\u00e3o popular, caracterizada pela superposi\u00e7\u00e3o entre unidades lingu\u00edsticas e unidades mel\u00f3dicas. \u00c9 conveniente poder associar uma cadeia de s\u00edlabas dotada de um \u00fanico acento (uma s\u00edlaba proeminente) com uma cadeia de notas dotada de uma \u00fanica proemin\u00eancia. O conceito de c\u00e9lula \u00e9 o que mais propriamente se adapta a este prop\u00f3sito. Assim, uma c\u00e9lula ser\u00e1 um grupo de notas, das quais uma \u00fanica se destaca por ter maior dura\u00e7\u00e3o e maior intensidade relativas, seu n\u00facleo.<\/p>\n<p>O segundo aspecto a ser tratado diz respeito \u00e0 reitera\u00e7\u00e3o da c\u00e9lula no curso do desenvolvimento mel\u00f3dico. Embora o termo j\u00e1 seja uma met\u00e1fora proveniente da biologia, poder\u00edamos ir mais longe e dizer que as c\u00e9lulas se \u201cmultiplicam\u201d ao longo da melodia. Se a chamada m\u00fasica de concerto baseia-se no desenvolvimento de motivos, a m\u00fasica popular baseia-se muito mais na sua repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas o mais importante aspecto de uma c\u00e9lula \u00e9 o fato de seu n\u00facleo estar associado a uma fun\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica. Na melodia da can\u00e7\u00e3o popular, a c\u00e9lula mel\u00f3dica \u00e9 uma unidade a um tempo harm\u00f4nica (h\u00e1 apenas um acorde para cada c\u00e9lula), r\u00edtmica (o n\u00facleo da c\u00e9lula coincide com a cabe\u00e7a de um compasso musical) e mel\u00f3dica (muitas vezes a c\u00e9lula tem um perfil mel\u00f3dico que se repete ao longo da melodia). Por essa raz\u00e3o, a nota-s\u00edlaba associada ao n\u00facleo da c\u00e9lula \u00e9 proeminente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais.<\/p>\n<p>Assim como a melodia \u00e9 ritmicamente demarcada pelos pulsos \u2013 os quais percebemos intuitiva e naturalmente quando batemos os p\u00e9s ou as m\u00e3os acompanhando uma melodia \u2013, ela \u00e9 tamb\u00e9m harmonicamente demarcada pelos n\u00facleos das c\u00e9lulas, que s\u00e3o percebidos como os lugares onde, entre outras coisas, o violonista troca de acordes e o contrabaixista toca a nota mais longa da linha do baixo. Na verdade, este \u00e9 um componente fundamental da aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem musical. Uma das compet\u00eancias b\u00e1sicas do m\u00fasico, mesmo o iniciante e amador, consiste em reconhecer as unidades que comp\u00f5em a cadeia mel\u00f3dica. \u00c9 exatamente esta compet\u00eancia, muito mais dependente da exposi\u00e7\u00e3o ao est\u00edmulo musical que de um treinamento escolar sistematizado, que tradicionalmente chamamos \u201ctocar de ouvido\u201d.<\/p>\n<p>Nem todo acorde \u00e9 n\u00facleo de uma c\u00e9lula harm\u00f4nica. Uma melodia pode ser mais ou menos ornamentada harmonicamente. Da\u00ed que o n\u00facleo de uma c\u00e9lula harm\u00f4nica deva necessariamente coincidir com a cabe\u00e7a de um compasso musical, associando-se \u00e0 nota\/s\u00edlaba com a maior intensidade e dura\u00e7\u00e3o relativas dentro da cadeia.<\/p>\n<p>Assim, no verso de <em>Caju\u00edna<\/em>, as duas c\u00e9lulas cont\u00e9m os acordes de D\u00f3 menor e F\u00e1 menor. Tais acordes instauram uma direcionalidade harm\u00f4nica m\u00ednima, condi\u00e7\u00e3o essencial para a constitui\u00e7\u00e3o do enunciado mel\u00f3dico elementar.<\/p>\n<p><em>Caju\u00edna<\/em> (Caetano Veloso)<\/p>\n<pre>#001.01\r\nS\u00edlaba        e  XIS tir MOS  a  QUE se  RA  que SE  des TI          na\r\n              |   |   |   |   |   |   |   |   |   |   |   |   *   *   |\r\nNota          N   N   N   N   N   N   N   N   N   N   N   N           N\r\nPulso             P       P       P       P       P       P       P\r\nCel                       C                               C\r\n<\/pre>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 uma quest\u00e3o te\u00f3rica interessante sobre o status da c\u00e9lula enquanto constituinte da hierarquia mel\u00f3dica. Se assumimos que a c\u00e9lula \u00e9 um constituinte mel\u00f3dico \u2013 assim como falamos que a palavra e a frase fonol\u00f3gica s\u00e3o constituintes pros\u00f3dicos \u2013, ent\u00e3o devemos explicitar como tal constituinte se forma e quais s\u00e3o seus limites. No entanto, tudo indica que os limites da c\u00e9lula somente podem ser estabelecidos em condi\u00e7\u00f5es muito particulares. No exemplo de <em>Caju\u00edna<\/em> \u00e9 poss\u00edvel afirmar a exist\u00eancia dos n\u00facleos de duas c\u00e9lulas \u2013 porque sabemos quais s\u00e3o os acentos harm\u00f4nicos \u2013 mas n\u00e3o se pode dizer onde termina a primeira delas, onde principia a segunda, e mesmo se estes limites coincidem ou n\u00e3o. Tudo leva a crer que a an\u00e1lise de melodias n\u00e3o precisa se referir aos limites dos constituintes, mas apenas ao alinhamento entre seus n\u00facleos. Consequentemente, abrimos m\u00e3o de uma representa\u00e7\u00e3o arb\u00f3rea para a melodia (como a da hierarquia pros\u00f3dica) e adotamos uma representa\u00e7\u00e3o em grade.<\/p>\n<p>Dado que a c\u00e9lula mel\u00f3dica \u00e9 um conjunto de notas das quais uma \u00fanica destaca-se das demais por receber o acento harm\u00f4nico, ela teria como contraparte lingu\u00edstica a palavra pros\u00f3dica, o grupo cl\u00edtico ou a frase fonol\u00f3gica, que s\u00e3o cadeias de s\u00edlabas dotadas de uma \u00fanica proemin\u00eancia. De fato, a c\u00e9lula \u00e9 uma esp\u00e9cie de locu\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica, ou seja, uma unidade musical que encontra seus limites na capacidade articulat\u00f3ria do gesto musical, seja este gesto vocal ou instrumental. Da\u00ed a tend\u00eancia da c\u00e9lula mel\u00f3dica a associar-se \u00e0queles constituintes pros\u00f3dicos. A seguir apresentamos alguns exemplos de c\u00e9lulas associadas a:<\/p>\n<p>(i) palavras pros\u00f3dicas, [ci.DA.de], [a.ba.ca.TEI.ro];<\/p>\n<p><em>Cidade Maravilhosa<\/em> (Andr\u00e9 Filho)<\/p>\n<pre>#016.01\r\nS\u00edlaba       ci  DA  de\r\n              |   |   | \r\nNota          N   N   N\r\nPulso         P   P   P\r\nCel               C\r\n<\/pre>\n<p><em>Refazenda<\/em> (Gilberto Gil)<\/p>\n<pre>#006.01\r\nS\u00edlaba        a  ba  ca  TEI ro\r\n              |   |   |   |   |\r\nNota          N   N   N   N   N\r\nPulso                     P\r\nCel                       C\r\n<\/pre>\n<p>(ii) grupos cl\u00edticos [meu.co.ra.\u00c7\u00c3O], [dojs.ir.M\u00c3OS];<\/p>\n<p><em>Carinhoso<\/em> (Pixinguinha &amp; Jo\u00e3o de Barro)<\/p>\n<pre>#009.01\r\nS\u00edlaba       MEU co  ra  \u00c7\u00c3O\r\n              |   |   |   | \r\nNota          N   N   N   N\r\nPulso         P           P\r\nCel                       C\r\n<\/pre>\n<p><em>Morro dois irm\u00e3os<\/em> (Chico Buarque)<\/p>\n<pre>#004.01\r\nS\u00edlaba      dois ir  M\u00c3OS\r\n              |   |   |\r\nNota          N   N   N\r\nPulso                 P\r\nCel                   C\r\n<\/pre>\n<p>(iii) frases fonol\u00f3gicas [quan.doj.Ej], [te.nho.pen.SA.do]<\/p>\n<p><em>Asa branca<\/em> (Luiz Gonzaga &amp; Humberto Teixeira)<\/p>\n<pre>#031.01\r\nS\u00edlaba      quan doj  Ej\r\n              |   |   |\r\nNota          N   N   N\r\nPulso         P       P\r\nCel                   C\r\n<\/pre>\n<p><em>Gabriela<\/em> (Tom Jobim)<\/p>\n<pre>#014.01\r\nS\u00edlaba       te  nho pen SA      do\r\n              |   |   |   |   *   |\r\nNota          N   N   N   N       N\r\nPulso         P           P\r\nCel                       C\r\n<\/pre>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o pulso-acento \u00e9 de ordem exclusivamente r\u00edtmica. Trata-se de uma rela\u00e7\u00e3o entre a express\u00e3o musical (o pulso) e a express\u00e3o verbal (o acento prim\u00e1rio ou secund\u00e1rio). A rela\u00e7\u00e3o da c\u00e9lula com o texto, por outro lado, parece envolver informa\u00e7\u00e3o de ordem morfol\u00f3gica (portanto, plano do conte\u00fado). Os n\u00facleos das c\u00e9lulas atraem os n\u00facleos das palavras lexicais, ou seja, nomes, verbos, adjetivos e adv\u00e9rbios. No primeiro verso de <em>Caju\u00edna<\/em> as tr\u00eas palavras lexicais (existir, ser, destinar) formam tr\u00eas frases fonol\u00f3gicas:<\/p>\n<p><em>Caju\u00edna<\/em> (Caetano Veloso)<\/p>\n<pre>#001.01\r\nFrasFon      [           PhP][          PhP][            PhP           ] \r\nS\u00edlaba        e  XIS tir MOS  a  QUE se  RA  que SE  des TI          na\r\n              |   |   |   |   |   |   |   |   |   |   |   |   *   *   |\r\nNota          N   N   N   N   N   N   N   N   N   N   N   N           N\r\nPulso             P       P       P       P       P       P       P\r\nCel                       C                               C\r\n<\/pre>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Assim, a regra b\u00e1sica para a constru\u00e7\u00e3o da c\u00e9lula mel\u00f3dica diz que seu n\u00facleo deve ser preferencialmente associado ao n\u00facleo de uma palavra lexical. Como temos duas c\u00e9lulas e tr\u00eas n\u00facleos lexicais, um destes \u00e9 descartado. O mesmo ocorre no d\u00e9cimo verso de Anuncia\u00e7\u00e3o, onde temos tr\u00eas palavras lexicais (anunciar, sino, catedral).<\/p>\n<p><em>Anuncia\u00e7\u00e3o<\/em> (Alceu Valen\u00e7a)<\/p>\n<pre>#010.10\r\nFrasFon      [           PhP  ] [        PhP][           PhP ]\r\nS\u00edlaba        eu TjA nun CI   o  NOS si  NOS das CA  te DRAIS\r\n              |   |   |   |   |   |   |   |   |   |   |   |\r\nNota          N   N   N   N   N   N   N   N   N   N   N   N\r\nPulso             P       P       P       P       P       P\r\nCel                       C                               C\r\n<\/pre>\n<p>Ao contr\u00e1rio do princ\u00edpio de alinhamento, o princ\u00edpio de associa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 inviol\u00e1vel. Eventualmente uma palavra n\u00e3o lexical pode estar associada \u00e0 c\u00e9lula, como, por exemplo, em <em>Morro dois irm\u00e3os<\/em>, onde uma conjun\u00e7\u00e3o se associa \u00e0 primeira c\u00e9lula.<\/p>\n<p><em>Morro dois irm\u00e3os<\/em> (Chico Buarque)<\/p>\n<pre>#004.01\r\nS\u00edlaba                    E                                  des con fi   AR do teu  si  L\u00caN             CIO\r\n                          |   *   *   *   *   *   *   *   *   |   |   |   |   |   |   |   |   *   *   *   |  \r\nNota                      N                                   N   N   N   N   N   N   N   N               N\r\nPulso                     P               P               P               P               P               P\r\nC\u00e9lula                    C                                                               C\r\n<\/pre>\n<p><em>Caju\u00edna<\/em> (Caetano Veloso)<\/p>\n<pre>#001.01\r\n<img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-large wp-image-936\" src=\"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/514_Cajuina-1-e1662604553312-1024x293.png\" alt=\"\" width=\"625\" height=\"179\" \/>\r\n<\/pre>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>C\u00e9lula harm\u00f4nica(C) \u2014 Frase fonol\u00f3gica (PhP) A rela\u00e7\u00e3o pulso-acento, fundada em crit\u00e9rios exclusivamente r\u00edtmicos, explica apenas parcialmente a distribui\u00e7\u00e3o de proemin\u00eancias na can\u00e7\u00e3o. Por exemplo, no primeiro verso de Cajuina, as s\u00edlabas MOS e TI claramente se destacam das demais. Caju\u00edna (Caetano Veloso) #001.01 S\u00edlaba e xis tir MOS a que se RA que se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-339","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/339","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=339"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/339\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1510,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/339\/revisions\/1510"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=339"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}