{"id":393,"date":"2022-03-13T00:54:24","date_gmt":"2022-03-13T00:54:24","guid":{"rendered":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/?page_id=393"},"modified":"2025-02-04T19:09:45","modified_gmt":"2025-02-04T19:09:45","slug":"pareamentometrico","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/pareamentometrico\/","title":{"rendered":"Pareamento m\u00e9trico"},"content":{"rendered":"\r\n<p class=\"has-text-align-center\"><b>1. PAREAMENTO M\u00c9TRICO<\/b><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><b>1.1 Anomalias pros\u00f3dicas<\/b><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o \u00e9 raro encontrar em meio aos versos de uma can\u00e7\u00e3o popular constru\u00e7\u00f5es estranhas \u00e0 pros\u00f3dia do portugu\u00eas. Ainda que <\/span>soem antinaturais quando faladas, <span style=\"font-weight: 400;\">tais <\/span>constru\u00e7\u00f5es parecem passar despercebidas quando cantadas. <span style=\"font-weight: 400;\">Em <em>Rouxinol,<\/em> por exemplo, Gilberto Gil canta o verso &#8220;Tratei da sua asa&#8221; (559.12a) com uma degemina\u00e7\u00e3o que jamais se realiza no portugu\u00eas falado.\u00a0 A degemina\u00e7\u00e3o est\u00e1 sujeita a uma restri\u00e7\u00e3o r\u00edtmica<\/span><sup class=\"fn\" data-fn=\"376517b5-14a7-445c-b765-852b433eb155\"><a id=\"376517b5-14a7-445c-b765-852b433eb155-link\" href=\"#376517b5-14a7-445c-b765-852b433eb155\">1<\/a><\/sup><span style=\"font-weight: 400;\"> , pois pode ocorrer apenas quando a segunda das vogais em contato n\u00e3o \u00e9 acentuada, do contr\u00e1rio a degemina\u00e7\u00e3o \u00e9 bloqueada. Dado que [A.sa] porta acento prim\u00e1rio, a degemina\u00e7\u00e3o deveria ser bloqueada, por\u00e9m isso n\u00e3o ocorre na interpreta\u00e7\u00e3o de Gilberto Gil (559.12b). Assim, embora <span style=\"font-weight: 400;\">o apagamento da primeira vogal<\/span><\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">seja inequ\u00edvoco, n\u00e3o decorre que seja o produto de uma degemina\u00e7\u00e3o, tal como esse processo \u00e9 descrito na fonologia do portugu\u00eas.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">559.12a-b\r\n(a) \u00a0     TraTEI da SUa Asa\r\n(b)\u00a0     #TRAtei da su\u00f8 Asa<\/pre>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Observa-se algo similar num verso de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Valsa brasileira<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (Chico Buarque e Edu Lobo), interpretada por Chico Buarque.\u00a0<\/span>Aqui o que causa estranheza \u00e9 a ditonga\u00e7\u00e3o (fil.me.a.a.\u00e7\u00e3o &gt;\u00a0 fil.mja.\u00e7\u00e3o). Dada a ocorr\u00eancia da an\u00e1strofe (\u201ccomo de um filme, a a\u00e7\u00e3o que n\u00e3o valeu\u201d <i><span style=\"font-weight: 400;\">versus <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201ccomo a a\u00e7\u00e3o de um filme que n\u00e3o valeu\u201d), e dado que a fonologia tem acesso \u00e0 sintaxe<\/span><sup class=\"fn\" data-fn=\"64f93c6d-c39e-4c20-8465-90f0f5364ae7\"><a id=\"64f93c6d-c39e-4c20-8465-90f0f5364ae7-link\" href=\"#64f93c6d-c39e-4c20-8465-90f0f5364ae7\">2<\/a><\/sup><span style=\"font-weight: 400;\"> , faz-se necess\u00e1ria uma pausa entre os versos (um filme\/\/a a\u00e7\u00e3o). Consequentemente, a ditonga\u00e7\u00e3o (fil.mja)<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">deveria ser bloqueada (557.6-7a), o que n\u00e3o ocorre quando a can\u00e7\u00e3o \u00e9 interpretada por Chico Buarque (557.6-7b). Mais uma vez, embora tenhamos a realiza\u00e7\u00e3o de um ditongo n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel afirmar categoricamente que este seja produto de uma ditonga\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">557.6-7\r\n(a)\u00a0    Como de um FILme \/\/ A a\u00c7\u00c3O que n\u00e3o vaLEU\r\n(b)    #CoMO de um FILmja\u00c7\u00c3O \u00a0 \u00a0 \u00a0 que N\u00c3O vaLEU\r\n<\/pre>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em <em>Barra pesada<\/em>, de Craveiro &amp; Cravinhos, \u00e9 a elis\u00e3o que causa estranheza. O verso &#8220;uma chora e nove canta&#8221; \u00e9 interpretado como uma cadeia de iambos, de modo que a proemin\u00eancia se desloca para a vogal elidida [CHO.re &gt; cho.RE] (585.18b). Nesse contexto a elis\u00e3o (cho.ra.e &gt; cho.re) deveria ser bloqueada uma vez que ela se realiza apenas quando ambas as vogais em contato s\u00e3o \u00e1tonas.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">585.15\r\n(a)\u00a0    U ma Cho re No ve CAN ta\r\n(b)    #u MA cho RE no VE CAN ta\r\n<\/pre>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Degemina\u00e7\u00e3o, ditonga\u00e7\u00e3o e elis\u00e3o s\u00e3o processos de reestrutura\u00e7\u00e3o em que ocorre redu\u00e7\u00e3o da quantidade de s\u00edlabas da cadeia. A reestrutura\u00e7\u00e3o por incremento de s\u00edlabas \u00e9 tamb\u00e9m <span style=\"color: #ff6600;\"><strong>comum (%)<\/strong><\/span> na palavra cantada, ainda que n\u00e3o se confunda com nenhum processo fonol\u00f3gico conhecido do portugu\u00eas falado. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Em (087.3a) e (087.3b) temos realiza\u00e7\u00f5es falada e cantada, respectivamente, de um verso de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Asa branca<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira), interpretada por Luiz Gonzaga<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">087.03\r\n(a)    Eu per gun TEI \u00a0 a DEUS do\u00a0 C\u00c9U\u00a0 AI\r\n(b) \u00a0 #Eu PER gun TE EJ a DEUS do\u00a0 C\u00c9U\u00a0 AI\r\n<\/pre>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(087.03b) tem dez s\u00edlabas, uma a mais que (087.03a). Caso esse incremento sil\u00e1bico resultasse da di\u00e9rese em (per.gun.tej &gt; per.gun.te.i), nada haveria de estranhar, por se tratar do recurso habitual do cancionista e do poeta. Por\u00e9m o que se observa em (087.03b) n\u00e3o \u00e9 uma di\u00e9rese (tej &gt; te.i), mas uma estranha \u201cep\u00eantese sil\u00e1bica\u201d (tej &gt; te.ej) que preserva o ditongo, ou seja, uma reestrutura\u00e7\u00e3o sil\u00e1bica que n\u00e3o encontra paralelo na l\u00edngua falada. Os casos genu\u00ednos de di\u00e9rese, por outro lado, n\u00e3o deixam de apresentar um interesse particular. E<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">m (533.16-17a) e (533.16-17b) temos as realiza\u00e7\u00f5es falada e cantada de um verso de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Tempo de estio<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (Caetano Veloso)<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">533.16-17\r\n(a)       o  RIW  es T\u00c1 CHEI  o  de  so  LAN ges  e  LEJ  las\r\n(b)       o  RIW  es T\u00c1 chei  O  de  SO  lan GES  e  LE i LAS\r\n<\/pre>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aqui, a di\u00e9rese em (b) parece bastante clara (Lej.las &gt; Le.i.las). Por\u00e9m \u00e9 interessante comparar <span style=\"font-weight: 400;\">(533.16-17a\/b)<\/span> com os versos hom\u00f3logos (533.18-19a\/b), que ocupam id\u00eantica posi\u00e7\u00e3o na estrofe seguinte.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">533.18-19\r\n(a)        A  nas  e  Ma  RI  nas  e  LU  cias e  Te  RE     zas\r\n(b)       #a  NAS  e  MA  ri  NAS  e  LU  cias E  Te  RE  e  ZAS\r\n<\/pre>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Assim como em (533.16-17b), em (533.18-19b) tamb\u00e9m temos inser\u00e7\u00e3o de uma s\u00edlaba epent\u00e9tica (Te.re.zas &gt; Te.re.e.zas). Dado o paralelismo estrutural entre (Te.re.zas &gt; Te.re.e.zas) e (Lej.las &gt; Le.i.las), somos levados a nos questionar sobre o real determinante da di\u00e9rese que aparentemente ocorre em (533.18-19b).\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sumarizando o problema descrito at\u00e9 aqui: assim como na fala natural, a palavra cantada est\u00e1 sujeita a processos de reestrutura\u00e7\u00e3o sil\u00e1bica, seja por redu\u00e7\u00e3o ou por incremento de material fon\u00e9tico. Na fala, tais processos de reestrutura\u00e7\u00e3o s\u00e3o determinados pelo ambiente lingu\u00edstico e pelo estilo de enuncia\u00e7\u00e3o (mais ou menos formal, maior ou menor velocidade da fala). A palavra falada apresenta, por vezes, reestrutura\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se justificam pelo ambiente lingu\u00edstico. Pode-se aventar a hip\u00f3tese de que, ancorada na fun\u00e7\u00e3o po\u00e9tica<\/span><sup class=\"fn\" data-fn=\"3ab8db4e-6cda-4d48-97b5-f5dc8af41308\"><a id=\"3ab8db4e-6cda-4d48-97b5-f5dc8af41308-link\" href=\"#3ab8db4e-6cda-4d48-97b5-f5dc8af41308\">3<\/a><\/sup><span style=\"font-weight: 400;\">, a palavra cantada faz uso de certas liberdades pros\u00f3dicas inadmiss\u00edveis na fala. No entanto, o exame de um extenso conjunto de can\u00e7\u00f5es (cf. <em><a href=\"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/corpus-2\/\" data-type=\"page\" data-id=\"395\">corpus<\/a> <\/em>) mostra que essa hip\u00f3tese n\u00e3o se sustenta. No que segue pretendemos demostrar que, ao contr\u00e1rio, todas as reestrutura\u00e7\u00f5es apontadas s\u00e3o o epifen\u00f4meno de uma condi\u00e7\u00e3o estrutural constitutiva da palavra cantada.<\/span> Como veremos nesse e nos cap\u00edtulos seguintes, a palavra falada est\u00e1 sujeita a certas condi\u00e7\u00f5es de boa forma\u00e7\u00e3o, condi\u00e7\u00f5es essas que nos levam a consider\u00e1-la como uma variedade da palavra falada dotada de uma <em>gram\u00e1tica fonol\u00f3gica <\/em>pr\u00f3pria.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>1.2. Entoa\u00e7\u00e3o e melodia<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Antes de adiantarmos nosso argumento \u00e9 preciso justificar o emprego que fazemos da express\u00e3o <em>palavra cantada<\/em> em detrimento de <em>canto. <\/em>Por palavra cantada entendemos uma variedade da fala na qual a cadeia segmental n\u00e3o \u00e9 associada apenas a uma cadeia de tons, mas tamb\u00e9m a uma cadeia de notas musicais. Na terminologia da fonologia autossegmental, dir\u00edamos que enquanto a fala caracteriza-se pela associa\u00e7\u00e3o entre uma camada segmental e uma camada tonol\u00f3gica, a palavra cantada se constitui pela associa\u00e7\u00e3o entre uma camada segmental, uma camada tonol\u00f3gica e uma camada mel\u00f3dic<em>a<\/em> (Fig. 1). Assim, ao empregar a express\u00e3o palavra cantada queremos enfatizar a pertin\u00eancia lingu\u00edstica do objeto da nossa investiga\u00e7\u00e3o, reservando o termo <em>canto<\/em> para referir ao uso do aparelho fonador para produzir m\u00fasica, independentemente de que esta seja ou n\u00e3o acompanhada da palavra.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-table is-style-regular\" style=\"font-size: 14px;\">\r\n<table class=\"has-fixed-layout\">\r\n<tbody>\r\n<tr>\r\n<td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\"><strong>palavra falada<\/strong><\/td>\r\n<td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\"><strong>palavra cantada<\/strong><\/td>\r\n<\/tr>\r\n<tr>\r\n<td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">camada pros\u00f3dica<br \/>|<br \/>camada segmental<\/td>\r\n<td class=\"has-text-align-center\" data-align=\"center\">camada pros\u00f3dica<br \/>|<br \/>camada segmental<br \/>|<br \/>camada mel\u00f3dica<\/td>\r\n<\/tr>\r\n<\/tbody>\r\n<\/table>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Dado que as camadas pros\u00f3dica e mel\u00f3dica se resolvem e compartilham os mesmos tra\u00e7os de altura, dura\u00e7\u00e3o e intensidade, a melodia musical, de um lado, e a pros\u00f3dia (ritmo, entoa\u00e7\u00e3o e acento), de outro, nada mais s\u00e3o que modos diferentes de estruturar o mesmo material fon\u00e9tico. \u00c9 gra\u00e7as a essa base material comum, que muitos linguistas se referem \u00e0 entoa\u00e7\u00e3o como <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">a \u201cmelodia da fala\u201d (WAUGH, 1980; BOLINGER, 1989). No entanto, parece mais interessante e produtivo destacar a diferen\u00e7a fundamental entre ambas e, por extens\u00e3o, entre fala e canto. <\/span><\/p>\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A unidade da entoa\u00e7\u00e3o \u00e9 o tom, ou seja, a frequ\u00eancia fundamental (f0) presente no n\u00facleo de toda s\u00edlaba. A entoa\u00e7\u00e3o da fala organiza-se em torno de apenas dois tons, alto (H) e baixo (L), cuja combinat\u00f3ria d\u00e1 origem a uma quantidade limitada de acentos tonais e de tons de fronteira (PIERREHUMBERT,1980)<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. Em raz\u00e3o dessa limita\u00e7\u00e3o \u2013 essencial para o funcionamento da entoa\u00e7\u00e3o enquanto sistema paralingu\u00edstico \u2013 a rela\u00e7\u00e3o entre tom e vogal (o n\u00facleo da s\u00edlaba) n\u00e3o \u00e9 bijetiva, ou seja, a rela\u00e7\u00e3o entre tom e vogal pode ser de um para um, de um para muitos, ou de muitos para um. Na formula\u00e7\u00e3o de Goldsmith (1976:27): (i) todas as vogais est\u00e3o associadas a ao menos um tom; e (ii) todos os tons est\u00e3o associados a ao menos uma vogal. A associa\u00e7\u00e3o entre um \u00fanico tom e uma \u00fanica vogal \u00e9 apenas um caso particular decorrente de (i) e (ii), como mostra (6).<\/span><\/p>\r\n<pre>                           T          T        T   T<br \/>                          \/ \\         |         \\ \/<br \/>                         \u03c3   \u03c3        \u03c3          \u03c3\r\n<\/pre>\r\n<p>Comparada com a melodia, a entoa\u00e7\u00e3o tem uma natureza \u201cel\u00e1stica\u201d, que lhe permite moldar-se a qualquer cadeia lingu\u00edstica. Assim, as entoa\u00e7\u00f5es constituem invent\u00e1rios relativamente est\u00e1veis da l\u00edngua, raz\u00e3o pela qual n\u00e3o criamos novas entoa\u00e7\u00f5es a cada ato da fala, mas, gra\u00e7as a sua elasticidade, apenas as adaptamos a novas cadeias de s\u00edlabas. Em suma, <span style=\"font-weight: 400;\">a entoa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 produtiva.\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Outra caracter\u00edstica importante da entoa\u00e7\u00e3o \u00e9 o fato de n\u00e3o ser recursiva. Conforme hip\u00f3tese formulada por Pierrehumbert (1980, p. 29), a entoa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma gram\u00e1tica de estados finitos, de modo que os morfemas entoacionais apenas se sucedem linearmente sem constituir hierarquias, moldando-se ao conte\u00fado sem\u00e2ntico, \u00e0 estrutura sint\u00e1tica e \u00e0 condi\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica da enuncia\u00e7\u00e3o.\u00a0<\/span><\/p>\r\n<p>\r\n\r\n<\/p>\r\n<p>\r\n\r\n<\/p>\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A melodia tem natureza diversa. Em primeiro lugar, a unidade da melodia n\u00e3o \u00e9 o tom, mas a nota (N) e, diferentemente do que ocorre com a entoa\u00e7\u00e3o, a rela\u00e7\u00e3o entre nota e s\u00edlaba \u00e9 bijetiva, ou seja, \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de um para um, como mostra (7).<\/span><\/p>\r\n<pre>                           *<br \/>                           N          N        N   N\r\n                          \/ \\         |         \\ \/\r\n                         \u03c3   \u03c3        \u03c3          \u03c3\r\n<\/pre>\r\n<p>\r\n\r\n<\/p>\r\n<p>\r\n\r\n<\/p>\r\n<p>\r\n\r\n<\/p>\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Afirmar que na palavra cantada a rela\u00e7\u00e3o entre nota (N) e s\u00edlaba (\u03c3) \u00e9 necessariamente bijetiva, \u00e9 o mesmo que afirmar que ela est\u00e1 sujeita a uma restri\u00e7\u00e3o. Na palavra cantada, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel associar uma \u00fanica nota a mais de uma s\u00edlaba, como tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel associar uma \u00fanica s\u00edlaba a mais de uma nota. Dada a universalidade dessa restri\u00e7\u00e3o, ou seja, dado que em toda melodia cantada a rela\u00e7\u00e3o entre nota (constituinte terminal da melodia) e s\u00edlaba (constituinte terminal do texto) \u00e9 de um para um, sem exce\u00e7\u00e3o, pode-se afirmar que essa rela\u00e7\u00e3o constitui uma das condi\u00e7\u00f5es de boa forma\u00e7\u00e3o da palavra cantada, a qual denominamos Pareamento M\u00e9trico.\u00a0<\/span><\/p>\r\n<p>\r\n\r\n<\/p>\r\n<p>\r\n\r\n<\/p>\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(8)<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">PAREAMENTO M\u00c9TRICO. <\/span><em><span style=\"font-weight: 400;\">Na palavra cantada, cada terminal da cadeia mel\u00f3dica (N, nota) deve ser pareado a um e apenas um terminal da cadeia sil\u00e1bica (\u03c3, s\u00edlaba) e vice-versa.\u00a0<\/span><\/em><\/p>\r\n<p>\r\n\r\n<\/p>\r\n<p>\r\n\r\n<\/p>\r\n<p>\r\n\r\n<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<p>melodia deve ser compat\u00edvel com a extens\u00e3o do verso. Quando o cancionista cria a melodia para um verso preexistente, esta n\u00e3o pode ter uma extens\u00e3o qualquer, ao contr\u00e1rio, h\u00e1 uma restri\u00e7\u00e3o m\u00e9trica que determina um ajuste da extens\u00e3o da melodia \u00e0 do verso. Obviamente, a mesma restri\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida para a composi\u00e7\u00e3o de um verso para uma melodia preexistente. Considerando que a unidade elementar da enuncia\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica \u00e9 a s\u00edlaba e que a unidade elementar da enuncia\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica \u00e9 a nota, esse ajuste m\u00e9trico consiste em alinhar uma determinada quantidade de s\u00edlabas \u00e0 igual quantidade de notas. Via de regra, tal alinhamento \u00e9 obtido gra\u00e7as aos processos de reestrutura\u00e7\u00e3o que ocorrem tanto na cadeia sil\u00e1bica quanto na cadeia mel\u00f3dica: a cadeia sil\u00e1bica pode ser reduzida (<em>apague \u03c3<\/em>) com o concurso de processos como degemina\u00e7\u00e3o, elis\u00e3o, sin\u00e9rese e haplologia , ou incrementada (<em>insira \u03c3<\/em>) pela di\u00e9rese e ep\u00eantese. A cadeia mel\u00f3dica, igualmente, pode ainda mais facilmente ser ajustada \u00e0 cadeia sil\u00e1bica pelo simples apagamento (<em>apague N<\/em>) ou inser\u00e7\u00e3o (<em>insira N<\/em>) de uma ou mais notas.\u00a0\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O alinhamento entre cadeia sil\u00e1bica e cadeia mel\u00f3dica \u00e9 um princ\u00edpio constitutivo da palavra cantada, ou seja, \u00e9 universalmente v\u00e1lido para qualquer l\u00edngua em qualquer idioma musical. Isso porque na palavra cantada n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pronunciar uma s\u00edlaba sem que a esta esteja associada uma, e apenas uma nota musical e, reciprocamente, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel emitir uma nota sem que a esta esteja associada uma, e apenas uma s\u00edlaba. O alinhamento nota\/s\u00edlaba \u00e9, portanto, um dos princ\u00edpios de boa forma\u00e7\u00e3o da palavra cantada, e foi formulado por XXXXX XX (2021) nos seguintes termos:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>(4) PAREAMENTO M\u00c9TRICO &#8211; <em>Na palavra cantada, cada terminal da cadeia mel\u00f3dica (N, nota) deve ser pareado a um<\/em>,<em> e apenas um<\/em>,<em> terminal da cadeia sil\u00e1bica (\u03c3, s\u00edlaba) e vice-versa \u201d (XXXXX XX, <\/em>2021:7<em>).\u00a0<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O pareamento m\u00e9trico afirma que a rela\u00e7\u00e3o entre nota\/s\u00edlaba na palavra cantada \u00e9 necessariamente bijetiva, o que constitui uma importante diferen\u00e7a entre palavra cantada e palavra falada. Como mostra a fonologia autosegmental (Clements &amp; Hume, 1995:247), na fala uma s\u00edlaba pode ser associada a um ou mais tons e um tom pode ser associado a uma ou mais s\u00edlabas . Na palavra cantada isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel porque a rela\u00e7\u00e3o nota\/s\u00edlaba \u00e9 for\u00e7osamente bijetiva. O quadro abaixo (Fig 2) representa esquematicamente essa diferen\u00e7a.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Na palavra cantada, uma sequ\u00eancia bem formada \u00e9 constitu\u00edda, portanto, por uma cadeia de notas musicais pareada bijetivamente a uma cadeia de s\u00edlabas. \u00c9 o que se observa na can\u00e7\u00e3o <em>Felicidade<\/em>, de Lupic\u00ednio Rodrigues (fig. 2).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Figura 3<strong> \u2014\u00a0 <\/strong>excerto de <em>Felicidade<\/em> (Lupic\u00ednio Rodrigues)<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Essa rela\u00e7\u00e3o bijetiva nota\/s\u00edlaba pode ser melhor visualizada num diagrama estrutural como o da Fig. 4. Nessa representa\u00e7\u00e3o N simboliza uma nota n\u00e3o especificada, * simboliza um <em>slot<\/em> r\u00edtmico n\u00e3o preenchido, e | simboliza uma linha de associa\u00e7\u00e3o nota\/s\u00edlaba.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Figura 4 &#8211; excerto de <em>Felicidade <\/em>(Lupic\u00ednio Rodrigues)<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O fragmento, com treze s\u00edlabas (e com igual quantidade de notas) poderia ser ressilabificado de modo a totalizar quatorze ou quinze s\u00edlabas. Para que o pareamento m\u00e9trico n\u00e3o seja violado, \u00e9 necess\u00e1ria a elis\u00e3o em (se.em &gt; sem) e em (ra.e &gt; re). Evidente que esses processos j\u00e1 ocorrem na fala natural e na escans\u00e3o po\u00e9tica. No entanto, n\u00e3o s\u00e3o raras as situa\u00e7\u00f5es em que a perda ou o incremento de material fon\u00e9tico resulta de reestrutura\u00e7\u00f5es excepcionais, que n\u00e3o ocorrem na fala. Por exemplo, em <em>Valsa brasileira<\/em>, a reestrutura\u00e7\u00e3o (fil.me, a.a\u00e7\u00e3o &gt; fil.mja.\u00e7\u00e3o) \u00e9 prosodicamente agramatical porque, dada a an\u00e1strofe (\u201ccomo de um filme, a a\u00e7\u00e3o que n\u00e3o valeu\u201d <em>versus <\/em>\u201ccomo a a\u00e7\u00e3o de um filme que n\u00e3o valeu\u201d), e dado que a fonologia tem acesso \u00e0 sintaxe (Abaurre, 1996), faz-se necess\u00e1ria uma pausa entre os versos (um filme\/\/a a\u00e7\u00e3o). Consequentemente, a ditonga\u00e7\u00e3o (fil.mja) deveria ser bloqueada, o que n\u00e3o ocorre quando a can\u00e7\u00e3o \u00e9 interpretada por Chico Buarque. No entanto, \u00e9 gra\u00e7as a essa estranha ditonga\u00e7\u00e3o que o verso, de onze s\u00edlabas (4.2), pode ser reduzido (<em>apague \u03c3<\/em>) e pareado \u00e0 melodia de dez notas (4.3).\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>J\u00e1 em <em>Aquele abra\u00e7o, <\/em>de Gilberto Gil, ocorre o incremento de material fon\u00e9tico (<em>insira<\/em> <em>\u03c3<\/em>) por uma esp\u00e9cie de ep\u00eantese sil\u00e1bica (mjes.que.CEU &gt; mjes.que.CE.eu; j\u00e1.me.DEU &gt; j\u00e1.me.DE.eu), de modo que o verso de sete s\u00edlabas possa ser pareado \u00e0 melodia de oito notas.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Figura 5 <strong>\u2014 <\/strong>excerto de <em>Aquele abra\u00e7o<\/em> (Gilberto Gil)<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Embora possa parecer que estamos diante de algo semelhante \u00e0 escans\u00e3o das s\u00edlabas po\u00e9ticas utilizada na versifica\u00e7\u00e3o, conv\u00e9m considerar a seguinte observa\u00e7\u00e3o de Saad Ali,\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>\u201cNa contagem de s\u00edlabas do interior do verso fundem-se frequentemente em s\u00edlaba \u00fanica a termina\u00e7\u00e3o voc\u00e1lica \u00e1tona e o in\u00edcio voc\u00e1lico da palavra imediata. Costuma-se dizer que houve \u201cabsor\u00e7\u00e3o\u201d ou \u201celis\u00e3o\u201d, exigida pela t\u00e9cnica versificat\u00f3ria, como se o fen\u00f4meno fosse alheio ao falar de todos os dias. Se absorver, elidir, significam eliminar, suprimir ou incorporar uma coisa em outra, n\u00e3o se dar\u00e1 isso sen\u00e3o em caso de serem as vogais em contato iguais ou parecidas. N\u00e3o h\u00e1 <em>com q&#8217;amor<\/em>, <em>led&#8217;e cego<\/em>, <em>porqu&#8217;as m\u00e3os <\/em>sen\u00e3o por hip\u00f3tese. Ningu\u00e9m l\u00ea verso diferentemente da prosa comum, absorvendo vogais em cada linha. Nem h\u00e1 jeito de dar sumi\u00e7o a algum dos fonemas em <em>j\u00e1 a luz<\/em>, <em>no assento<\/em>, <em>e os bar\u00f5es<\/em>, etc. E, apesar de tudo isso, sem fazermos viol\u00eancia \u00e0 express\u00e3o usual, os versos soam com o n\u00famero exato de s\u00edlabas e o desejado movimento r\u00edtmico\u201d.\u00a0<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Os dados mostrados at\u00e9 aqui indicam que na palavra cantada o pareamento m\u00e9trico reestrutura a cadeia sil\u00e1bica nos moldes de uma escans\u00e3o, com a importante diferen\u00e7a que a \u201cviol\u00eancia \u00e0 express\u00e3o usual\u201d de que fala Ali pode ocorrer, como mostram os exemplos acima<em>.\u00a0<\/em><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">At\u00e9 o momento temos feito uma descri\u00e7\u00e3o contrastiva de constru\u00e7\u00f5es faladas e cantadas, como se essas fossem compar\u00e1veis entre si. Trata-se de um recurso heur\u00edstico que n\u00e3o resiste a um exame mais acurado. Vamos recorrer a conceitos de modelos fonol\u00f3gicos n\u00e3o-lineares, em particular da fonologia autossegmental, da fonologia pros\u00f3dica e da fonologia m\u00e9trica da fonologia. <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Do ponto de vista estritamente lingu\u00edstico, a fala se constitui pela sobreposi\u00e7\u00e3o de duas cadeias, segmental (segmentos e respectiva organiza\u00e7\u00e3o em s\u00edlabas) e suprasegmental ou pros\u00f3dica (acento, entoa\u00e7\u00e3o e ritmo). A an\u00e1lise fonol\u00f3gica faz refer\u00eancia a uma, a outra, ou \u00e0 intera\u00e7\u00e3o entre essas duas cadeias. A palavra cantada, diferentemente, \u00e9 dotada de uma melodia que n\u00e3o se confunde com a entoa\u00e7\u00e3o da fala, um ritmo que n\u00e3o se confunde com o ritmo da fala e uma acentua\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se confunde com a acentua\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria e secund\u00e1ria da fala natural. Portanto, qualquer tentativa de an\u00e1lise da palavra cantada tem que considerar o fator \u201cmelodia\u201d, um elemento extralingu\u00edstico aparentemente capaz de ativar ou bloquear processos fonol\u00f3gicos.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Diante desse quadro, duas abordagens metodol\u00f3gicas para descrever a palavra cantada se apresentam, ambas teoricamente plaus\u00edveis:\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(i) na primeira, mais afim com nossa intui\u00e7\u00e3o do que seja o canto, a palavra cantada pode ser considerada como a fala acompanhada de uma melodia musical. Nessa perspectiva, a palavra cantada seria uma variedade da palavra falada constitu\u00edda, n\u00e3o por duas, mas por tr\u00eas cadeias sobrepostas: segmental, pros\u00f3dica e mel\u00f3dica.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(ii) na segunda, a cadeia mel\u00f3dica na palavra cantada n\u00e3o coexiste com a cadeia pros\u00f3dica, mas a substitui. Nesse ponto de vista, a palavra cantada seria uma variedade da palavra falada constitu\u00edda por duas cadeias sobrepostas: segmental e mel\u00f3dica.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><strong>bica (\u03c3, s\u00edlaba) e vice-versa \u201d (Carmo Jr, 2021:7).<\/strong><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Antes de adiantarmos nosso argumento \u00e9 preciso justificar o emprego da express\u00e3o <i><span style=\"font-weight: 400;\">palavra cantada<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> em detrimento de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">canto. <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">Por palavra cantada entendemos uma variedade da fala na qual a cadeia sil\u00e1bica n\u00e3o \u00e9 associada a uma cadeia de tons, mas a uma cadeia de notas musicais. Na terminologia da fonologia autossegmental, dir\u00edamos que enquanto a fala caracteriza-se pela associa\u00e7\u00e3o entre um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">tier<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> sil\u00e1bico e um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">tier <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">tonol\u00f3gico, a palavra cantada se constitui pela associa\u00e7\u00e3o entre um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">tier <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">sil\u00e1bico e um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">tier <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">mel\u00f3dico (Fig. 1). Portanto, ao empregar a express\u00e3o palavra cantada queremos enfatizar a pertin\u00eancia lingu\u00edstica do objeto da nossa investiga\u00e7\u00e3o, reservando o termo <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">canto<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> para referir ao uso do aparelho fonador para produzir m\u00fasica, independentemente de que esta seja ou n\u00e3o acompanhada da palavra.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Figura 1<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-table\">\r\n<table class=\"has-fixed-layout\">\r\n<tbody>\r\n<tr>\r\n<td><span style=\"font-weight: 400;\">palavra falada<\/span><\/td>\r\n<td><span style=\"font-weight: 400;\">palavra cantada<\/span><\/td>\r\n<\/tr>\r\n<tr>\r\n<td><i><span style=\"font-weight: 400;\">tier <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">tonol\u00f3gico<\/span>\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">|<\/span><\/p>\r\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">tier <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">sil\u00e1bico<\/span><\/p>\r\n<\/td>\r\n<td><i><span style=\"font-weight: 400;\">tier <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">mel\u00f3dico<\/span>\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">|<\/span><\/p>\r\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">tier <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">sil\u00e1bico<\/span><\/p>\r\n<\/td>\r\n<\/tr>\r\n<\/tbody>\r\n<\/table>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Feita esta ressalva terminol\u00f3gica, entende-se porque a condi\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">sine qua non<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> para a an\u00e1lise da palavra cantada \u00e9 a possibilidade de tratar estruturas musicais e fonol\u00f3gicas numa base conceitual comum. \u00c9 crucial que tenhamos \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o um conjunto de termos t\u00e9cnicos que nos permita referir \u00e0s entidades da pros\u00f3dia (s\u00edlaba, p\u00e9, palavra fonol\u00f3gica, etc.) e da melodia (nota, pulso, motivo, acorde, etc.), assim como \u00e0s rela\u00e7\u00f5es que essas entidades estabelecem entre si. As primeiras tentativas de estabelecer tal base conceitual\u00a0 &#8211; ainda que motivadas por outros objetivos -, datam dos anos 70, quando linguistas e music\u00f3logos (Ruwet, 1975; Nattiez, 1975; Molino, 1976) se propuseram a utilizar m\u00e9todos lingu\u00edsticos na an\u00e1lise musical. Ancoradas numa concep\u00e7\u00e3o de fonologia estritamente segmental e linear, herdada do estruturalismo cl\u00e1ssico e perpetuada no modelo gerativo padr\u00e3o do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">The Sound Patterns of English<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, essas iniciativas mostraram-se incapazes de descrever a natureza relacional da pros\u00f3dia e da melodia. O problema come\u00e7a a ser contornado com o advento das fonologias n\u00e3o-lineares. Estudos de fonolog\u00eda pros\u00f3dica (Selkirk, 1984;\u00a0 Nespor &amp; Vogel, 1986), fonologia m\u00e9trica (Liberman &amp; Prince, 1975; Halle &amp; Vergnaud, 1987) e fonologia autossegmental (Goldsmith, 1976) trouxeram uma nova compreens\u00e3o sobre o funcionamento do significante lingu\u00edstico e permitiram, entre outros avan\u00e7os, um melhor entendimento do ritmo, abrindo caminho para a an\u00e1lise do ritmo na poesia (por exemplo, Hayes &amp; Kaun, 1996), e, posteriormente, para a an\u00e1lise do ritmo na palavra cantada (por exemplo, Hayes &amp; MacEachern, 1998).\u00a0 Paralelamente a estes avan\u00e7os da teoria fonol\u00f3gica, Lerdhal e Jackendoff apresentam em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">A Generative<\/span><\/i><i><span style=\"font-weight: 400;\"> Theory of Tonal Music<\/span><\/i> <span style=\"font-weight: 400;\">(1983) um conjunto de ferramentas te\u00f3ricas que permitem uma aproxima\u00e7\u00e3o conceitual entre m\u00fasica e linguagem.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Mas o primeiro tratamento da palavra cantada propriamente dita, a partir de uma abordagem\u00a0 simultaneamente lingu\u00edstica e musicol\u00f3gica, encontra-se nos trabalhos de John Halle (1993, 2003). Halle concebe a palavra cantada como um objeto composto que combina dois objetos simples, texto e melodia. Dado que esses objetos t\u00eam estrutura pr\u00f3pria e existem independentemente um do outro, como fala natural e melodia instrumental respectivamente, coloca-se de imediato o problema das condi\u00e7\u00f5es de boa forma\u00e7\u00e3o da palavra cantada (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">text setting problem<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">), problema que foi formulado originalmente por Halle (2005:50) nos seguintes termos:<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201cDada uma cadeia de s\u00edlabas S e uma melodia M, quais s\u00e3o as propriedades da aloca\u00e7\u00e3o de S em M que a escuta considera um arranjo aceit\u00e1vel entre texto e melodia?\u201d<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A formula\u00e7\u00e3o desse problema abriu caminho para v\u00e1rias outras quest\u00f5es menores, mas n\u00e3o menos importantes, tais como: quais e quantos s\u00e3o os constituintes pros\u00f3dicos e mel\u00f3dicos pertinentes para a an\u00e1lise da palavra cantada? Quais s\u00e3o as propriedades de cada um desses constituintes? S\u00e3o esses constituintes organizados hierarquicamente? Em caso afirmativo, h\u00e1 isomorfismo entre hierarquia pros\u00f3dica e hierarquia mel\u00f3dica? No presente ensaio nos deteremos sobre um aspecto da segunda quest\u00e3o. Discutiremos quais s\u00e3o as propriedades do acento na palavra cantada e como tais propriedades podem explicar as constru\u00e7\u00f5es excepcionais, das quais vimos alguns exemplos na introdu\u00e7\u00e3o a este trabalho.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em fun\u00e7\u00e3o desse objetivo, limitaremos nossa an\u00e1lise \u00e0s tr\u00eas categorias mais baixas da hierarquia pros\u00f3dica, ou seja, s\u00edlaba, p\u00e9 e palavra fonol\u00f3gica. Veremos como a intera\u00e7\u00e3o desses constituintes com estruturas musicais pode explicar a atribui\u00e7\u00e3o excepcional do acento que verificamos na palavra cantada. A categoria mais baixa da hierarquia pros\u00f3dica \u00e9 a s\u00edlaba (\u03c3). Dado que o acento tem natureza relacional, ou seja, dado que o acento s\u00f3 se define por contraste sintagm\u00e1tico, toda s\u00edlaba \u00e9 necessariamente portadora de acento, ainda que de diferentes graus. S\u00edlabas organizam-se em p\u00e9s (\u03a3), unidades da hierarquia pros\u00f3dica que determinam a proemin\u00eancia relativa de cada s\u00edlaba numa cadeia de duas ou mais delas. O conceito de p\u00e9 \u00e9 essencial na an\u00e1lise da atribui\u00e7\u00e3o do acento secund\u00e1rio numa sequ\u00eancia fonol\u00f3gica e guarda rela\u00e7\u00e3o com o conceito de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">pulso <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">em m\u00fasica. Por fim, a palavra fonol\u00f3gica (w) \u00e9 um constituinte n-\u00e1rio dotado de uma \u00fanica s\u00edlaba proeminente sobre a qual incide o acento prim\u00e1rio. Representando esses tr\u00eas constituintes com o modelo de Halle e Vergnaud (1987), vemos que (1) e (2) s\u00e3o duas realiza\u00e7\u00f5es poss\u00edveis da palavra pro.fun.di.da.de<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">.\u00a0<\/span><\/i><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A diferen\u00e7a entre ambas reside na atribui\u00e7\u00e3o do acento secund\u00e1rio, uma sequ\u00eancia troqueu + troqueu em (1), e uma sequ\u00eancia d\u00e1tilo + troqueu em (2). A relativa mobilidade do acento secund\u00e1rio<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> contrasta com a imobilidade do acento prim\u00e1rio: enquanto o acento secund\u00e1rio pode variar com certa liberdade ainda que dentro de certas restri\u00e7\u00f5es m\u00e9tricas &#8211; e a palavra cantada faz amplo uso dessa varia\u00e7\u00e3o -, o acento prim\u00e1rio pode deslocar-se em condi\u00e7\u00f5es muito limitadas, como a da colis\u00e3o acentual, por exemplo<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. Esse n\u00e3o \u00e9 o caso de (3), onde inverte-se a distribui\u00e7\u00e3o dos p\u00e9s (agora uma sequ\u00eancia troqueu + d\u00e1tilo) e, mais importante, a s\u00edlaba DA perde o acento prim\u00e1rio e desce \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de s\u00edlaba n\u00e3o proeminente. Embora pro.fun.<\/span><b>DI<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">.da.de seja uma constru\u00e7\u00e3o prosodicamente agramatical, n\u00e3o aceita no portugu\u00eas falado, \u00e9 assim que \u00e9 cantada, nos versos de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Divina Com\u00e9dia Humana<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">. Tudo ocorre como se na palavra cantada certas barreiras estabelecidas pelas regras fonol\u00f3gicas do portugu\u00eas falado pudessem ser transpostas. Ao sobrepor texto e melodia, e instado por esta, o cancionista parece poder ir al\u00e9m dos limites do uso da l\u00edngua. Da\u00ed a aparente agramaticalidade pros\u00f3dica de algumas de suas constru\u00e7\u00f5es. No que segue discutiremos algumas propriedades da intera\u00e7\u00e3o entre constituintes pros\u00f3dicos e \u201cconstituintes\u201d mel\u00f3dicos. Adotaremos uma perspectiva <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">botton up<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, procurando identificar quais elementos estruturais da melodia estabelecem rela\u00e7\u00f5es com a s\u00edlaba, o p\u00e9, e a palavra fonol\u00f3gica, respectivamente, e de que modo o fazem.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><b>2 Pareamento M\u00e9trico<\/b><\/h4>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A mais elementar das intera\u00e7\u00f5es entre texto e melodia \u00e9 de natureza m\u00e9trica. A extens\u00e3o da melodia deve ser compat\u00edvel com a extens\u00e3o do verso. Quando o cancionista cria a melodia para um verso preexistente, esta n\u00e3o pode ter uma extens\u00e3o qualquer, ao contr\u00e1rio, h\u00e1 uma restri\u00e7\u00e3o m\u00e9trica que determina um ajuste da extens\u00e3o da melodia \u00e0 do verso. Obviamente, a mesma restri\u00e7\u00e3o \u00e9 v\u00e1lida para a composi\u00e7\u00e3o de um verso para uma melodia preexistente. Considerando que a unidade elementar da enuncia\u00e7\u00e3o lingu\u00edstica \u00e9 a s\u00edlaba e que a unidade elementar da enuncia\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica \u00e9 a nota, esse ajuste m\u00e9trico consiste em alinhar uma determinada quantidade de s\u00edlabas \u00e0 igual quantidade de notas. Via de regra, tal alinhamento \u00e9 obtido gra\u00e7as aos processos de reestrutura\u00e7\u00e3o que ocorrem tanto na cadeia sil\u00e1bica quanto na cadeia mel\u00f3dica: a cadeia sil\u00e1bica pode ser reduzida (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">apague \u03c3<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">) com o concurso de processos como degemina\u00e7\u00e3o, elis\u00e3o, sin\u00e9rese e haplologia , ou incrementada (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">insira \u03c3<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">) pela di\u00e9rese e ep\u00eantese. A cadeia mel\u00f3dica, igualmente, pode ainda mais facilmente ser ajustada \u00e0 cadeia sil\u00e1bica pelo simples apagamento (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">apague N<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">) ou inser\u00e7\u00e3o (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">insira N<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">) de uma ou mais notas.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O alinhamento entre cadeia sil\u00e1bica e cadeia mel\u00f3dica \u00e9 um princ\u00edpio constitutivo da palavra cantada, ou seja, \u00e9 universalmente v\u00e1lido para qualquer l\u00edngua em qualquer idioma musical. Isso porque na palavra cantada n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel pronunciar uma s\u00edlaba sem que a esta esteja associada uma, e apenas uma nota musical e, reciprocamente, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel emitir uma nota sem que a esta esteja associada uma, e apenas uma s\u00edlaba<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. O alinhamento nota\/s\u00edlaba \u00e9, portanto, um dos princ\u00edpios de boa forma\u00e7\u00e3o da palavra cantada, e foi formulado por XXXXX XX (2021) nos seguintes termos:<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(4)\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O pareamento m\u00e9trico afirma que a rela\u00e7\u00e3o entre nota\/s\u00edlaba na palavra cantada \u00e9 necessariamente bijetiva, o que constitui uma importante diferen\u00e7a entre palavra cantada e palavra falada. Como mostra a fonologia autosegmental (Clements &amp; Hume, 1995:247), na fala uma s\u00edlaba pode ser associada a um ou mais tons e um tom pode ser associado a uma ou mais s\u00edlabas . Na palavra cantada isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel porque a rela\u00e7\u00e3o nota\/s\u00edlaba \u00e9 for\u00e7osamente bijetiva. O quadro abaixo (Fig 2) representa esquematicamente essa diferen\u00e7a.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Figura 2<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-table\">\r\n<table class=\"has-fixed-layout\">\r\n<tbody>\r\n<tr>\r\n<td><span style=\"font-weight: 400;\">palavra falada<\/span><\/td>\r\n<td><span style=\"font-weight: 400;\">palavra cantada<\/span><\/td>\r\n<\/tr>\r\n<tr>\r\n<td><span style=\"font-weight: 400;\">a associa\u00e7\u00e3o bijetiva \u00e9 uma das rela\u00e7\u00f5es poss\u00edveis entre tom e s\u00edlaba<\/span><\/td>\r\n<td><span style=\"font-weight: 400;\">a associa\u00e7\u00e3o bijetiva \u00e9 a \u00fanica rela\u00e7\u00e3o poss\u00edvel entre nota e s\u00edlaba<\/span><\/td>\r\n<\/tr>\r\n<tr>\r\n<td>\u00a0<\/td>\r\n<td>\u00a0<\/td>\r\n<\/tr>\r\n<\/tbody>\r\n<\/table>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Na palavra cantada, uma sequ\u00eancia bem formada \u00e9 constitu\u00edda, portanto, por uma cadeia de notas musicais pareada bijetivamente a uma cadeia de s\u00edlabas. \u00c9 o que se observa na can\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Felicidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, de Lupic\u00ednio Rodrigues (fig. 2).<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Figura 3<\/span><b> \u2014\u00a0 <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">excerto de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Felicidade<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (Lupic\u00ednio Rodrigues)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa rela\u00e7\u00e3o bijetiva nota\/s\u00edlaba pode ser melhor visualizada num diagrama estrutural como o da Fig. 4. Nessa representa\u00e7\u00e3o N simboliza uma nota n\u00e3o especificada, * simboliza um <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">slot<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> r\u00edtmico n\u00e3o preenchido, e | simboliza uma linha de associa\u00e7\u00e3o nota\/s\u00edlaba.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Figura 4 &#8211; excerto de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Felicidade <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">(Lupic\u00ednio Rodrigues)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O fragmento, com treze s\u00edlabas (e com igual quantidade de notas) poderia ser ressilabificado de modo a totalizar quatorze ou quinze s\u00edlabas.<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">Para que o pareamento m\u00e9trico n\u00e3o seja violado, \u00e9 necess\u00e1ria a elis\u00e3o em (se.em &gt; sem) e em (ra.e &gt; re). Evidente que esses processos j\u00e1 ocorrem na fala natural e na escans\u00e3o po\u00e9tica. No entanto, n\u00e3o s\u00e3o raras as situa\u00e7\u00f5es em que a perda ou o incremento de material fon\u00e9tico resulta de reestrutura\u00e7\u00f5es excepcionais, que n\u00e3o ocorrem na fala. Por exemplo, em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Valsa brasileira<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, a reestrutura\u00e7\u00e3o (fil.me, a.a\u00e7\u00e3o &gt; fil.mja.\u00e7\u00e3o) \u00e9 prosodicamente agramatical porque, dada a an\u00e1strofe (\u201ccomo de um filme, a a\u00e7\u00e3o que n\u00e3o valeu\u201d <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">versus <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">\u201ccomo a a\u00e7\u00e3o de um filme que n\u00e3o valeu\u201d), e dado que a fonologia tem acesso \u00e0 sintaxe (Abaurre, 1996), faz-se necess\u00e1ria uma pausa entre os versos (um filme\/\/a a\u00e7\u00e3o). Consequentemente, a ditonga\u00e7\u00e3o (fil.mja)<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">deveria ser bloqueada, o que n\u00e3o ocorre quando a can\u00e7\u00e3o \u00e9 interpretada por Chico Buarque. No entanto, \u00e9 gra\u00e7as a essa estranha ditonga\u00e7\u00e3o que o verso, de onze s\u00edlabas (4.2), pode ser reduzido (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">apague \u03c3<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">) e pareado \u00e0 melodia de dez notas (4.3).\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Aquele abra\u00e7o, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">de Gilberto Gil, ocorre o incremento de material fon\u00e9tico (<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">insira<\/span><\/i> <i><span style=\"font-weight: 400;\">\u03c3<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">) por uma esp\u00e9cie de ep\u00eantese sil\u00e1bica (mjes.que.CEU &gt; mjes.que.CE.eu; j\u00e1.me.DEU &gt; j\u00e1.me.DE.eu), de modo que o verso de sete s\u00edlabas possa ser pareado \u00e0 melodia de oito notas.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Figura 5 <\/span><b>\u2014 <\/b><span style=\"font-weight: 400;\">excerto de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Aquele abra\u00e7o<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (Gilberto Gil)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fonte: Elabora\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>PAREAMENTO M\u00c9TRICO: <span style=\"font-weight: 400;\">Na palavra cantada, cada terminal da cadeia mel\u00f3dica (N, nota) deve ser pareado a um e apenas um terminal da cadeia sil\u00e1bica (\u03c3, s\u00edlaba) e vice-versa.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Como o objetivo deste trabalho \u00e9 descrever tais constru\u00e7\u00f5es e propor uma hip\u00f3tese para as ocorr\u00eancias, apresentaremos inicialmente a hip\u00f3tese das condi\u00e7\u00f5es de boa forma\u00e7\u00e3o da palavra cantada para, ent\u00e3o, discutirmos, \u00e0 luz de tal hip\u00f3tese, alguns dos processos que fazem refer\u00eancia \u00e0 s\u00edlaba e ao acento, e \u00e0 maneira como estes se realizam na palavra cantada.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><b>Condi\u00e7\u00f5es de boa forma\u00e7\u00e3o da palavra cantada<\/b><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><b>Regras de reestrutura\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Estamos agora em condi\u00e7\u00f5es de formular uma hip\u00f3tese para descrever a ocorr\u00eancia de constru\u00e7\u00f5es pros\u00f3dicas an\u00f4malas na palavra cantada, das quais acabamos de ver alguns exemplos. Sendo uma das condi\u00e7\u00f5es de boa forma\u00e7\u00e3o da palavra cantada, o Pareamento M\u00e9trico \u00e9 inviol\u00e1vel. Na eventualidade de uma desassocia\u00e7\u00e3o entre notas e s\u00edlabas, d\u00e1-se necessariamente um ajustamento entre a cadeia mel\u00f3dica e a cadeia sil\u00e1bica na forma de apagamento ou de inser\u00e7\u00e3o de s\u00edlabas e\/ou notas. S\u00e3o quatro os cen\u00e1rios poss\u00edveis para esse ajustamento, os quais correspondem a quatro regras:<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(i) regra do apagamento da s\u00edlaba &#8211; apague \u03c3;<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(ii) regra da inser\u00e7\u00e3o da s\u00edlaba &#8211;\u00a0 insira \u03c3;<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(iii) regra do apagamento da nota &#8211; apague N;<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(iv) regra da inser\u00e7\u00e3o da nota &#8211;\u00a0 insira N.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Neste artigo nos deteremos sobretudo nos dois primeiros casos, pois s\u00e3o os \u00fanicos pertinentes para an\u00e1lise lingu\u00edstica. Uma vez aplicadas as regras apague \u03c3 e insira \u03c3, a cadeia sil\u00e1bica pode ser reestruturada, sujeitando-se aos processos fonol\u00f3gicos usuais. Vejamos cada um desses casos.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(9) apague \u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> (<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2192 \u2205 \/ N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> &lt; \u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Se a quantidade de s\u00edlabas de uma cadeia \u00e9 maior que a quantidade de notas da melodia, apagam-se as s\u00edlabas para satisfazer (8).<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A aplica\u00e7\u00e3o de apague \u03c3 explica a aparente degemina\u00e7\u00e3o em (1b). De fato, o verso correspondente \u00e9 constitu\u00eddo por sete s\u00edlabas, mas a melodia por apenas seis notas, como se pode ver na figura 1.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-table\">\r\n<table class=\"has-fixed-layout\">\r\n<tbody>\r\n<tr>\r\n<td><span style=\"font-weight: 400;\">Fig. 1<\/span>\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A n\u00e3o associa\u00e7\u00e3o entre terminais resolve-se pela aplica\u00e7\u00e3o de apague \u03c3<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">de modo a satisfazer (8). Assim:<\/span><\/p>\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(1a)<\/span><\/p>\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nota \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0| \u00a0 \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 \u00a0 \/ \\\u00a0 \u00a0 \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">S\u00edlaba\u00a0 \u00a0 \u00a0 Tra \u00a0 \u00a0 tei \u00a0 \u00a0 da\u00a0 \u00a0 \u00a0 su \u00a0 \u00a0 a \u00a0 a\u00a0 \u00a0 sa<\/span><\/p>\r\n<\/td>\r\n<\/tr>\r\n<\/tbody>\r\n<\/table>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<pre class=\"wp-block-preformatted\">(1a)\r\n\r\nNota \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N\u00a0\u00a0\r\n\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0| \u00a0 \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 \u00a0 \/ \\\u00a0 \u00a0 \u00a0 |\r\nS\u00edlaba\u00a0 \u00a0 \u00a0 Tra \u00a0 \u00a0 tei \u00a0 \u00a0 da\u00a0 \u00a0 \u00a0 su \u00a0 \u00a0 a \u00a0 a\u00a0 \u00a0 sa<\/pre>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">apague \u03c3 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">(<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> \u2192 \u2205 \/ N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> &lt; \u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-table\">\r\n<table class=\"has-fixed-layout\">\r\n<tbody>\r\n<tr>\r\n<td><span style=\"font-weight: 400;\">(1b)<\/span>\r\n<p><span style=\"font-weight: 800;\">Nota \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N\u00a0<\/span><\/p>\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0| \u00a0 \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">S\u00edlaba\u00a0 \u00a0 \u00a0 Tra \u00a0 \u00a0 tei \u00a0 \u00a0 da\u00a0 \u00a0 \u00a0 su \u00a0 \u00a0 \u00a0 a\u00a0 \u00a0 \u00a0 sa<\/span><\/p>\r\n<\/td>\r\n<\/tr>\r\n<\/tbody>\r\n<\/table>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Nessa perspectiva o apagamento da s\u00edlaba n\u00e3o resulta de um processo fonol\u00f3gico <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">stricto sensu<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (no caso, a degemina\u00e7\u00e3o), mas de um processo mel\u00f3dico-fonol\u00f3gico espec\u00edfico da palavra cantada. Pode-se objetar que (8) seria igualmente satisfeito sem que fosse necess\u00e1ria a degemina\u00e7\u00e3o, mas apenas ditongando-se o hiato (su.a &gt; swa), como pode ser visto em (1c).<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<figure class=\"wp-block-table\">\r\n<table class=\"has-fixed-layout\">\r\n<tbody>\r\n<tr>\r\n<td><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 N\u00a0<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0| \u00a0 \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 \u00a0 |<\/span>\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(1b)\u00a0 \u00a0 \u00a0 Tra \u00a0 \u00a0 tei \u00a0 \u00a0 da\u00a0 \u00a0 \u00a0 su \u00a0 \u00a0 \u00a0 a\u00a0 \u00a0 \u00a0 sa<\/span><\/p>\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(1c)\u00a0 \u00a0 \u00a0 Tra \u00a0 \u00a0 tei \u00a0 \u00a0 da\u00a0 \u00a0 \u00a0 swa\u00a0 \u00a0 \u00a0 a\u00a0 \u00a0 \u00a0 sa<\/span><\/p>\r\n<\/td>\r\n<\/tr>\r\n<\/tbody>\r\n<\/table>\r\n<\/figure>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">No entanto, nossa an\u00e1lise tem por objeto fonogramas espec\u00edficos, no presente caso, a interpreta\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o feita por Gilberto Gil indicada mais acima. Nesse fonograma, o int\u00e9rprete canta (1b) e n\u00e3o (1a) ou (1c).\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Vejamos agora como a regra apague \u03c3 pode explicar o que ocorre em (2a) e (2b), em que se observa uma ditonga\u00e7\u00e3o que n\u00e3o se realizaria em condi\u00e7\u00f5es normais (filme, a a\u00e7\u00e3o &gt; filme a\u00e7\u00e3o &gt; filmja\u00e7\u00e3o). Novamente, parece que o fator decisivo na realiza\u00e7\u00e3o ou n\u00e3o de um processo fonol\u00f3gico \u00e9 extralingu\u00edstico. V\u00ea-se que (2a) \u00e9 constitu\u00eddo por treze s\u00edlabas ao passo que a melodia correspondente \u00e9 constitu\u00edda por dez notas, como se observa na figura 2.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Fig. 2<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Para que (8) n\u00e3o seja violado<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">, <\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">aplica-se apague \u03c3<\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\"> .<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> Assim:<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(2a)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0N \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0| \u00a0 | \u00a0 \/ \\ \u00a0 |\u00a0 \u00a0 \/|\\ \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0co\u00a0 mo de um fil me a a \u00e7\u00e3o que n\u00e3o va\u00a0 leu<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">apague \u03c3 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">(\u03c3 \u2192 \u2205 \/ N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> &lt; \u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(2b)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0N \u00a0 N \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0| \u00a0 | \u00a0 |\u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0co\u00a0 mo dewm fil \u00a0 mja \u00e7\u00e3o que n\u00e3o va\u00a0 leu<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Observe-se que a ditonga\u00e7\u00e3o (de um &gt; djum) n\u00e3o apresenta problema algum, pois j\u00e1 ocorre na fala e, por isso, n\u00e3o \u00e9 considerada em nosso argumento. J\u00e1 a ditonga\u00e7\u00e3o + degemina\u00e7\u00e3o em (filme, a a\u00e7\u00e3o &gt; filmja\u00e7\u00e3o) n\u00e3o nos parece ser constru\u00e7\u00e3o prosodicamente aceit\u00e1vel no portugu\u00eas falado. Portanto, somente pode ser produto da associa\u00e7\u00e3o entre cadeia segmental e cadeia mel\u00f3dica, associa\u00e7\u00e3o esta que tem (8) como princ\u00edpio de boa forma\u00e7\u00e3o.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pelo Pareamento M\u00e9trico, a quantidade de notas deve ser igual \u00e0 de s\u00edlabas. J\u00e1 vimos como essa condi\u00e7\u00e3o \u00e9 satisfeita pelo apagamento de s\u00edlabas quando a quantidade destas \u00e9 superior \u00e0 quantidade de notas da cadeia (N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> &lt; \u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">) pela aplica\u00e7\u00e3o de apague \u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> (\u03c3 \u2192 \u2205 \/ N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> &lt; \u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">). Quando, inversamente, a quantidade de notas \u00e9 superior \u00e0 quantidade de s\u00edlabas (N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> &gt; \u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">), aplica-se insira \u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> (\u2205 \u2192 \u03c3\/ N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> &gt; \u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">).\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(10) insira \u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">. (\u2205 \u2192 \u03c3\/ N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> &gt; \u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Se a quantidade de notas excede a quantidade de s\u00edlabas de uma cadeia, inserem-se s\u00edlabas para satisfazer (8).<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa regra somente pode ser verificada indiretamente. Assim, pela simples compara\u00e7\u00e3o entre (3a) e (3b), n\u00e3o se pode afirmar categoricamente que a s\u00edlaba ej<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">tenha sido inserida para n\u00e3o violar (8). Em uma primeira an\u00e1lise, a inser\u00e7\u00e3o poderia ser meramente fruto da liberdade po\u00e9tica do cancionista. Por\u00e9m vimos que o Pareamento M\u00e9trico determina a rela\u00e7\u00e3o biun\u00edvoca nota\/s\u00edlaba, o que implica a impossibilidade de se cantar uma nota sem que lhe seja associada uma s\u00edlaba, qualquer que seja ela. \u00c9 o que ocorreria em (6a), dado que a quantidade de notas da melodia (dez), excede a quantidade de s\u00edlabas do verso (nove).<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(3a)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">eu per gun \u00a0 tej\u00a0 \u00a0 a Deus do\u00a0 c\u00e9u\u00a0 ai<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">| \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 \/ \u00a0 \\ \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 |\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 em (3a) clara viola\u00e7\u00e3o de (8). Nossa hip\u00f3tese \u00e9 que (3a) reestrutura-se em (3b), satisfazendo (8).<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(3b)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">eu per gun te \u00a0 ej\u00a0 a Deus do\u00a0 c\u00e9u\u00a0 ai<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">| \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 |\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa hip\u00f3tese \u00e9 corroborada pela compara\u00e7\u00e3o com versos hom\u00f3logos da can\u00e7\u00e3o que se alinham \u00e0 mesma melodia de (3a). Assim:<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(3b) \u00a0 Eu\u00a0 per\u00a0 gun\u00a0 te\u00a0 \u00a0 ej<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0a \u00a0 Deus\u00a0 do\u00a0 c\u00e9u \u00a0 ai<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(3c) \u00a0 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">por fal\u00a0 ta\u00a0 d&#8217;\u00e1 \u00a0 gua\u00a0 per\u00a0 di \u00a0 meu\u00a0 ga \u00a0 do<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(3d) \u00a0 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">En\u00a0 ton\u00a0 cew\u00a0 di \u00a0 sse \u00a0 a\u00a0 deus\u00a0 Ro \u00a0 si \u00a0 nha<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(3e) \u00a0 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Es\u00a0 pe \u00a0 rwa\u00a0 chu\u00a0 va \u00a0 ca \u00a0 ir \u00a0 de \u00a0 no \u00a0 vo<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(3f) \u00a0 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Eu\u00a0 tja\u00a0 sse\u00a0 gu \u00a0 ro \u00a0 n\u00e3o\u00a0 cho\u00a0 re \u00a0 n\u00e3o\u00a0 viu<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0|\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Observam-se aqui diversas reestrutura\u00e7\u00f5es, todas previs\u00edveis na fala, com exce\u00e7\u00e3o da inser\u00e7\u00e3o da s\u00edlaba ej, motivada, conforme o que acabamos de expor, pelo Pareamento M\u00e9trico.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O mesmo argumento se aplica a (4a), onde aparentemente ocorre uma di\u00e9rese em (Lej.las &gt; Le.i.las). Aqui tamb\u00e9m a quantidade de notas excede a de s\u00edlabas. A melodia \u00e9 constitu\u00edda por quatorze notas, ao passo que o verso \u00e9 constitu\u00eddo por treze s\u00edlabas.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(4a)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O\u00a0 Rio\u00a0 es t\u00e1 chei\u00a0 o\u00a0 de\u00a0 So\u00a0 lan ges\u00a0 e\u00a0 \u00a0 Lej \u00a0 las<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">| \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 \/ \u00a0 \\ \u00a0 |\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Pela aplica\u00e7\u00e3o de insira \u03c3, (4a) reestrutura-se em (4b)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(4b)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O\u00a0 Rio\u00a0 es t\u00e1 chei\u00a0 o\u00a0 de\u00a0 So\u00a0 lan ges\u00a0 e\u00a0 Le \u00a0 i\u00a0 las<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">| \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 |\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em princ\u00edpio poder\u00edamos descrever a reestrutura\u00e7\u00e3o (Lej.las &gt; Le.i.las) como simples di\u00e9rese motivada pela m\u00e9trica po\u00e9tica, sem rela\u00e7\u00e3o alguma com a melodia da can\u00e7\u00e3o. No entanto, dada a rigidez estrutural que caracteriza a melodia, a inser\u00e7\u00e3o via di\u00e9rese em (4b) se repete em (4c), agora como ep\u00eantese.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(4b) \u00a0 O\u00a0 Rio\u00a0 es t\u00e1 chei\u00a0 o\u00a0 de\u00a0 So\u00a0 lan ges\u00a0 e\u00a0 <\/span><b>Le \u00a0 i<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0 las<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(4c) \u00a0 A\u00a0 nas\u00a0 e\u00a0 Ma\u00a0 ri\u00a0 nas\u00a0 e\u00a0 Lu\u00a0 cias e\u00a0 Te\u00a0 <\/span><b>re \u00a0 e<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0 zas<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0| \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 |\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Parece-nos que a hip\u00f3tese mais defens\u00e1vel \u00e9 que, seja pela di\u00e9rese (4b), seja pela ep\u00eantese (4c), em ambos os casos temos a aplica\u00e7\u00e3o da regra insira \u03c3, a qual impede a viola\u00e7\u00e3o do Pareamento M\u00e9trico<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Resta-nos apresentar as regras de inser\u00e7\u00e3o e apagamento de notas, cujo interesse \u00e9 muito mais musicol\u00f3gico que lingu\u00edstico, porque a inser\u00e7\u00e3o ou apagamento de s\u00edlabas se manifesta como um processo fonol\u00f3gico cuja motiva\u00e7\u00e3o \u00faltima, como acabamos de ver, \u00e9 musical. J\u00e1 a inser\u00e7\u00e3o ou apagamento de notas, ao contr\u00e1rio, se apresenta como um \u201cprocesso\u201d mel\u00f3dico que tem origem no texto. No primeiro caso, a melodia imp\u00f5e sua estrutura \u00e0 cadeia sil\u00e1bica; no segundo, a integridade sem\u00e2ntico-sint\u00e1tico-fonol\u00f3gica do texto \u00e9 preservada, for\u00e7ando a adapta\u00e7\u00e3o da melodia ao texto.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(11) apague N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> (N \u2192 \u2205 \/ <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> &lt; N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Se a quantidade de s\u00edlabas de uma cadeia \u00e9 menor que a quantidade de notas da melodia, apagam-se as notas para satisfazer (8).<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A estrofe (12 a-d) com os quatro versos iniciais de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">G\u00eet\u00e2<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, interpretada por Raul Seixas<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">, ilustra a regra (11), ao mesmo tempo em que nos permite destacar a diferen\u00e7a entre um poema rigidamente estruturado pela m\u00e9trica, e uma can\u00e7\u00e3o, cuja m\u00e9trica \u00e9 muito mais flex\u00edvel.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0N \u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 (N)\u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0| \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(12a)\u00a0 As \u00a0 ve\u00a0 \u00a0 zes \u00a0 vo\u00a0 \u00a0 c\u00ea\u00a0 \u00a0 me\u00a0 \u00a0 per \u00a0 gun \u00a0 ta<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(12b) Por\u00a0 kje \u00a0 \u00a0 \u00d8 \u00a0 kjew \u00a0 sou \u00a0 t\u00e3o \u00a0 ca\u00a0 \u00a0 la\u00a0 \u00a0 do<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(12c) N\u00e3o \u00a0 fa\u00a0 \u00a0 lo\u00a0 \u00a0 dea \u00a0 mor \u00a0 qua \u00a0 se\u00a0 \u00a0 na\u00a0 \u00a0 da<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(12d) Nem \u00a0 fi\u00a0 \u00a0 co\u00a0 \u00a0 so\u00a0 \u00a0 rin\u00a0 dwaw\u00a0 teu\u00a0 \u00a0 la\u00a0 \u00a0 do<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Em primeiro lugar, observamos que, enquanto (12 a, c e d) possuem nove s\u00edlabas e nove notas, (12b) possui oito s\u00edlabas e oito notas, logo, em conson\u00e2ncia com o Pareamento M\u00e9trico (8). Essa disparidade entre a quantidade de s\u00edlabas dos versos que comp\u00f5em uma estrofe \u00e9 bastante comum na can\u00e7\u00e3o popular, e nesse aspecto a letra de uma can\u00e7\u00e3o se distingue da poesia tradicional e da poesia popular, ambas fortemente atreladas \u00e0 m\u00e9trica. Quando o letrista toma a liberdade de diminuir ou aumentar a quantidade de s\u00edlabas de determinado verso &#8211; n\u00e3o importa a raz\u00e3o para que o fa\u00e7a &#8211; a quantidade de notas da melodia tem que ser necess\u00e1ria e correspondentemente aumentada ou diminu\u00edda. \u00c9 o que verificamos em\u00a0 (12b), pela aplica\u00e7\u00e3o de apague N. Assim:<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(12b<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">1<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0| \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por\u00a0 kje \u00a0 \u00a0 \u00d8 \u00a0 kjew \u00a0 sou \u00a0 t\u00e3o \u00a0 ca\u00a0 \u00a0 la\u00a0 \u00a0 do<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">apague N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> (N \u2192 \u2205 \/ <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> &lt; N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(12b<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">2<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0| \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 |\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por\u00a0 kje \u00a0 kjew \u00a0 sou \u00a0 t\u00e3o \u00a0 ca\u00a0 \u00a0 la\u00a0 \u00a0 do<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Processo semelhante ocorre quando do acr\u00e9scimo de notas, como mostrado nos versos iniciais de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Sampa<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, interpretada por Caetano Veloso<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> (13a-c).\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(13a-c)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0| \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(a) \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 <\/span><b>AL<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00a0 gu\u00a0 \u00a0 ma\u00a0 \u00a0 coi \u00a0 sa\u00a0 \u00a0 con \u00a0 te\u00a0 \u00a0 ce\u00a0 \u00a0 no\u00a0 \u00a0 meu \u00a0 co\u00a0 \u00a0 ra\u00a0 \u00a0 \u00e7\u00e3o<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(b)\u00a0 \u00a0 \u00a0 que \u00a0 <\/span><b>S\u00d3<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00a0 quan \u00a0 do\u00a0 \u00a0 cru \u00a0 zaj\u00a0 \u00a0 pi \u00a0 ran \u00a0 gja \u00a0 ve\u00a0 \u00a0 ni\u00a0 \u00a0 da\u00a0 \u00a0 s\u00e3o\u00a0 jo\u00e3o<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(c) \u00e9\u00a0 \u00a0 que\u00a0 <\/span><b>QUAN<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0 dwew \u00a0 che \u00a0 guei\u00a0 por\u00a0 \u00a0 a\u00a0 \u00a0 qui \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 eu\u00a0 \u00a0 na\u00a0 \u00a0 den \u00a0 ten \u00a0 di\u00a0 <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Aqui vemos um incremento na anacruse que antecede o primeiro tempo forte (em negrito) de cada verso. Diferentemente do poema, em que o verso se organiza em torno da quantidade de s\u00edlabas, contadas a partir da primeira delas, a can\u00e7\u00e3o tem como ponto de refer\u00eancia o tempo forte do primeiro compasso da frase musical. Anacruse \u00e9 todo material que precede o tempo forte, podendo, em princ\u00edpio, ter qualquer quantidade de notas\/s\u00edlabas. Assim, (13c) \u00e9 reestruturado como (13d) pela aplica\u00e7\u00e3o da regra insira N.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(14) insira N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> (\u2205 \u2192 N \/ <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> &gt; N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Se a quantidade de s\u00edlabas de uma cadeia \u00e9 maior que a quantidade de notas da melodia, inserem-se notas para satisfazer (8).<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(13c)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0| \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00e9\u00a0 \u00a0 que\u00a0 <\/span><b>QUAN<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0 dwew \u00a0 che \u00a0 guei\u00a0 por\u00a0 \u00a0 a\u00a0 \u00a0 qui \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 eu\u00a0 \u00a0 na\u00a0 \u00a0 den \u00a0 ten \u00a0 di<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">insira N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> (\u2205 \u2192 N \/ <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">\u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> &gt; N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(13d)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0| \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00e9\u00a0 \u00a0 que\u00a0 <\/span><b>QUAN<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0 dwew \u00a0 che \u00a0 guei\u00a0 por\u00a0 \u00a0 a\u00a0 \u00a0 qui \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 eu\u00a0 \u00a0 na\u00a0 \u00a0 den \u00a0 ten \u00a0 di<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Podemos concluir preliminarmente, a partir dos dados at\u00e9 aqui mostrados, que existem contextos nos quais alguns componentes da gram\u00e1tica tornam-se invis\u00edveis para a melodia. Em outros termos, dado que a palavra cantada se constitui pela superposi\u00e7\u00e3o de dois componentes, verbal e musical, e dado que cada um desses apresenta gram\u00e1tica pr\u00f3pria, pode ocorrer conflito entre estruturas verbais e mel\u00f3dicas, de onde resulta algum tipo de ajustamento de um ou de outro lado. Se as estruturas verbais imp\u00f5em-se sobre a melodia, esta se adapta inserindo ou suprimindo notas na cadeia, de modo a n\u00e3o violar o Pareamento M\u00e9trico. Se, ao contr\u00e1rio, a estrutura mel\u00f3dica imp\u00f5em-se sobre o texto &#8211; e esse \u00e9 o caso mais interessante do ponto de vista lingu\u00edstico &#8211; s\u00e3o as s\u00edlabas que agora podem ser suprimidas ou criadas. Nesses casos, a palavra cantada parece poder violar processos fonol\u00f3gicos usualmente observados na variedade falada. Em outros termos, tudo indica que certas constru\u00e7\u00f5es s\u00e3o aceitas quando cantadas, mas n\u00e3o o s\u00e3o quando faladas. Assim, os dados observados at\u00e9 aqui nos levam a indagar por que certas constru\u00e7\u00f5es soam antinaturais quando faladas (isto \u00e9, s\u00e3o fonologicamente an\u00f4malas), mas passam despercebidas quando cantadas.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><b>Discuss\u00e3o<\/b><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">A hip\u00f3tese apresentada neste trabalho defende a exist\u00eancia de certas condi\u00e7\u00f5es de boa forma\u00e7\u00e3o que regulam a rela\u00e7\u00e3o entre texto e melodia na palavra cantada. A mais b\u00e1sica dessas condi\u00e7\u00f5es estipula que a rela\u00e7\u00e3o entre nota e s\u00edlaba \u00e9 bijetiva, o que temos chamado de Pareamento M\u00e9trico. Ocorre que esse princ\u00edpio vai de encontro a outro, tacitamente aceito na literatura musicol\u00f3gica, segundo o qual \u00e9 sempre poss\u00edvel associar a uma \u00fanica s\u00edlaba mais de uma nota musical. Melodias assim constru\u00eddas s\u00e3o chamadas \u201cmelism\u00e1ticas\u201d <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">(HARTONG, 2007:160). Em vista disso, discutiremos agora alguns argumentos <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">a favor da tese da rela\u00e7\u00e3o bijetiva nota\/s\u00edlaba.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Do ponto de vista fonol\u00f3gico &#8211; e independentemente do modelo de s\u00edlaba que adotemos -, devemos admitir que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel associar mais de uma nota a uma s\u00edlaba completa (ataque + n\u00facleo + coda). Se duas notas s\u00e3o associadas a uma tal s\u00edlaba, a primeira necessariamente ser\u00e1 constitu\u00edda pelo ataque + n\u00facleo e a segunda pelo n\u00facleo + coda. Al\u00e9m disso, se mais de duas notas s\u00e3o associadas a uma \u00fanica s\u00edlaba, todas as intermedi\u00e1rias entre a inicial e final ser\u00e3o associadas apenas ao n\u00facleo. Por exemplo, em <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o quero dinheiro<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">, Tim Maia canta uma cadeia de cinco notas, que s\u00e3o grafadas na partitura sobre uma \u00fanica s\u00edlaba: (a) MOR (1).<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Parece-nos claro que essa cadeia de notas segmenta a s\u00edlaba MOR em tr\u00eas partes, \u201cMO\u201d, \u201cO\u201d e \u201cOR\u201d. A primeira nota est\u00e1 associada \u00e0 s\u00edlaba MO, ou seja, ataque + n\u00facleo; as tr\u00eas notas seguintes est\u00e3o associadas \u00e0 s\u00edlaba O, ou seja, ao n\u00facleo; por fim, a \u00faltima nota est\u00e1 associada \u00e0 s\u00edlaba OR, ou seja, n\u00facleo + coda. Portanto, a transcri\u00e7\u00e3o mais adequada dessa melodia seria (2), n\u00e3o (1). Essa representa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais consent\u00e2nea \u00e0 realidade ac\u00fastica da cadeia, uma vez que a coda n\u00e3o \u00e9 aud\u00edvel na primeira s\u00edlaba, nem o ataque na \u00faltima.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Outro argumento, agora fon\u00e9tico-articulat\u00f3rio, \u00e9 que uma cadeia de notas associada a uma \u00fanica vogal n\u00e3o pode ser indefinidamente longa. Se assim for, uma pausa ser\u00e1 necessariamente inserida, determinando o limite da s\u00edlaba. Por exemplo, numa passagem do <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Messias<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> de Haendel, a s\u00edlaba <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">born<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 associada a uma cadeia de 57 notas.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ocorre que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel cantar essa sequ\u00eancia sem introduzir n\u00e3o uma, mas v\u00e1rias pausas. Como afirmar ent\u00e3o que temos a\u00ed uma \u00fanica s\u00edlaba?<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por fim, h\u00e1 um argumento m\u00e9trico em apoio \u00e0 hip\u00f3tese da associa\u00e7\u00e3o biun\u00edvoca nota\/s\u00edlaba. A melodia de uma can\u00e7\u00e3o \u00e9 constitu\u00edda quase sempre de um conjunto limitado de frases musicais, muitas vezes por uma \u00fanica frase que se repete com varia\u00e7\u00f5es. Assim como o verso de um poema, a frase musical estabelece um padr\u00e3o m\u00e9trico, que \u00e9 preenchido por diferentes textos, ou seja, por diferentes cadeias de s\u00edlabas. Os versos de <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">Asa branca<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> s\u00e3o um bom exemplo disso:<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Quan\u00a0 doj\u00a0 ej\u00a0 \u00a0 a \u00a0 te \u00a0 rar\u00a0 den\u00a0 do<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0|\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Qual\u00a0 fo\u00a0 guei\u00a0 ra \u00a0 de \u00a0 s\u00e3o jo\u00e3o<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0|\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Que \u00a0 bra\u00a0 sei\u00a0 ro \u00a0 que\u00a0 for\u00a0 na \u00a0 lha<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0|\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0Ne\u00a0 nhum\u00a0 p\u00e9 \u00a0 de \u00a0 pran\u00a0 ta\u00a0 \u00e7\u00e3o<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">etc.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Numa das interpreta\u00e7\u00f5es dessa can\u00e7\u00e3o (https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=zsFSHg2hxbc), Luiz Gonzaga canta essas frases mel\u00f3dicas com uma \u00fanica s\u00edlaba, \u201chum\u201d.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">hum \u00a0 hum\u00a0 hum\u00a0 hum\u00a0 hum\u00a0 hum\u00a0 hum\u00a0 hum<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0|\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">hum \u00a0 hum\u00a0 hum\u00a0 hum\u00a0 hum\u00a0 hum\u00a0 hum<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o nos parece poss\u00edvel comutar uma cadeia de oito s\u00edlabas (2) por outra de uma \u00fanica s\u00edlaba (1). A hip\u00f3tese mais simples, portanto, \u00e9 considerar que essa cadeia cont\u00e9m n\u00e3o uma s\u00edlaba, mas oito repeti\u00e7\u00f5es da mesma s\u00edlaba \u201chum\u201d. Exemplos como este s\u00e3o abundantes na m\u00fasica popular.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por todas essas raz\u00f5es, parece-nos que a associa\u00e7\u00e3o biun\u00edvoca entre nota e s\u00edlaba \u00e9 a hip\u00f3tese mais simples para explicar alguns fatos estranhos que ocorrem na palavra cantada. Ademais, a hip\u00f3tese da rela\u00e7\u00e3o bijetiva nota\/s\u00edlaba n\u00e3o contradiz o fato observado em in\u00fameras interpreta\u00e7\u00f5es nas quais o cantor varia livremente a f0 da nota, de modo que uma \u00fanica vogal associa-se a dois ou mais valores de altura. Cantores como Ed Motta e Aretha Franklin s\u00e3o representantes desse estilo melism\u00e1tico. Por\u00e9m, \u00e9 necess\u00e1rio distinguir tais casos em que o int\u00e9rprete explora o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">continuum<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> da altura daqueles que tratam a altura como um conjunto de tons discretos.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">De certo modo, a melodia tem uma dimens\u00e3o \u201cfonol\u00f3gica\u201d constitu\u00edda por um invent\u00e1rio discreto de notas, e uma dimens\u00e3o \u201cfon\u00e9tica\u201d, constitu\u00edda pelo cont\u00ednuo da altura (e da dura\u00e7\u00e3o e intensidade, claro). Aqui, procuramos descrever a dimens\u00e3o fonol\u00f3gica da m\u00fasica.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><b>Rigidez e ordena\u00e7\u00e3o das regras<\/b><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 preciso mencionar agora dois problemas decorrentes do que acabamos de expor. O primeiro diz respeito \u00e0 aus\u00eancia de rigidez entre entrada e sa\u00edda das regras de reestrutura\u00e7\u00e3o. O segundo diz respeito \u00e0 ordem hier\u00e1rquica que se estabelece entre, de um lado, os processos fonol\u00f3gicos determinados apenas pelo ambiente lingu\u00edstico e pelas condi\u00e7\u00f5es da enuncia\u00e7\u00e3o e, de outro, os processos mel\u00f3dico-fonol\u00f3gicos determinados pela melodia. Esses problemas extrapolam os limites do presente ensaio e demandam um texto integralmente a eles dedicado, mas n\u00e3o podemos deixar de apresentar seus contornos gerais.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 vimos que em (3a) a quantidade de notas excede a quantidade de s\u00edlabas, o que leva \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de insira \u03c3, do que resulta (3b).<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(3a)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">eu per gun \u00a0 tei\u00a0 \u00a0 a Deus do\u00a0 c\u00e9u\u00a0 ai<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">| \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 \/ \u00a0 \\ \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 |\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">insira \u03c3<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">(\u2205 \u2192 \u03c3\/ N<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\"> &gt; \u03c3<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">n<\/span><span style=\"font-weight: 400;\">)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(3b)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">eu per gun te\u00a0 ej \u00a0 a Deus do\u00a0 c\u00e9u\u00a0 ai<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">| \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 |\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Ocorre que o Pareamento M\u00e9trico \u00e9 muito amplo, assim como o ambiente das regras dele derivadas. O princ\u00edpio determina apenas que a quantidade de s\u00edlabas deve ser igual \u00e0 quantidade de notas, sem especificar como esta igualdade deve ser alcan\u00e7ada. Em outras palavras, dada uma regra, \u00e9 poss\u00edvel que muitas possam ser as sa\u00eddas a partir de uma mesma entrada. Assim, (3b) n\u00e3o decorre necessariamente da aplica\u00e7\u00e3o de insira \u03c3<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">a (3a), ao contr\u00e1rio, diversas reestrutura\u00e7\u00f5es s\u00e3o poss\u00edveis, como, por exemplo (3g), (3h) e (3i), que satisfazem o Pareamento M\u00e9trico.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(3b) \u00a0 eu\u00a0 per\u00a0 gun\u00a0 te \u00a0 <\/span><b>ej<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0 \u00a0 a\u00a0 Deus\u00a0 do \u00a0 c\u00e9u\u00a0 ai (ep\u00eantese sil\u00e1bica)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(3g) \u00a0 <\/span><b>e\u00a0 \u00a0 u<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00a0 per\u00a0 gun\u00a0 tej \u00a0 a\u00a0 Deus\u00a0 do \u00a0 c\u00e9u\u00a0 ai (di\u00e9rese eu &gt; e u)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(3h) \u00a0 eu\u00a0 per\u00a0 gun\u00a0 tej \u00a0 a \u00a0 <\/span><b>De \u00a0 us<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00a0 do \u00a0 c\u00e9u\u00a0 ai (di\u00e9rese Dews &gt; De us)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(3i) \u00a0 eu\u00a0 per\u00a0 gun\u00a0 tej \u00a0 a \u00a0 Deus do \u00a0 <\/span><b>c\u00e9\u00a0 \u00a0 u<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00a0 ai (di\u00e9rese em c\u00e9w &gt; c\u00e9 u)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0|\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Por que apenas (3b) se realiza? N\u00e3o temos condi\u00e7\u00e3o de responder categoricamente a esta quest\u00e3o no momento. Observe-se apenas que em (3g-i), a di\u00e9rese incide sobre palavras pros\u00f3dicas monossil\u00e1bicas (eu, Deus, c\u00e9u) e compromete em certo grau a compreensibilidade do texto, o que n\u00e3o ocorre com a ep\u00eantese em (3b). Outro fator que talvez bloqueie essas constru\u00e7\u00f5es diz respeito \u00e0 m\u00e9trica da melodia. As di\u00e9reses (3g-i) n\u00e3o apenas criam novas s\u00edlabas, mas deslocam os respectivos acentos para a vogal que substitui a semivogal origin\u00e1ria (ew &gt; e U), (cew &gt; ce U), (dews &gt; de US), o que tamb\u00e9m compromete a compreensibilidade do texto. Assim, embora o\u00a0 Pareamento M\u00e9trico fa\u00e7a refer\u00eancia apenas \u00e0 s\u00edlaba e \u00e0 nota, a descri\u00e7\u00e3o das reestrutura\u00e7\u00f5es requer refer\u00eancia a outros fatores, como m\u00e9trica (da melodia), acento prim\u00e1rio e secund\u00e1rio, e ao dom\u00ednio pros\u00f3dico sobre o qual incide a reestrutura\u00e7\u00e3o (palavra, p\u00e9, frase fonol\u00f3gica), pelo menos.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O segundo problema decorrente da amplitude do Pareamento M\u00e9trico diz respeito \u00e0 ordena\u00e7\u00e3o entre regras fonol\u00f3gicas e regras \u201cmel\u00f3dico-fonol\u00f3gicas\u201d na palavra cantada. Vimos que tanto insira \u03c3<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">quanto apague \u03c3 s\u00e3o regras espec\u00edficas da palavra cantada. Tais regras coocorrem com as regras de inser\u00e7\u00e3o e apagamento da fonologia do portugu\u00eas. Assim, na transforma\u00e7\u00e3o (2a) &gt; (2b) temos ditonga\u00e7\u00e3o (de um &gt; djum) e degemina\u00e7\u00e3o (a a\u00e7\u00e3o &gt; a\u00e7\u00e3o) em conson\u00e2ncia com a fonologia do portugu\u00eas brasileiro. O que causa problema \u00e9 apenas a ditonga\u00e7\u00e3o (#filme a &gt; filmja), pelas raz\u00f5es j\u00e1 adiantadas. Dado que nosso <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">corpus<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> \u00e9 constitu\u00eddo pelos fonogramas e pelo texto escrito fornecido no encarte de cada disco, nossa an\u00e1lise a eles tem se restringido. Por\u00e9m devemos lembrar que o texto escrito \u00e9 uma transcri\u00e7\u00e3o da fala conforme as regras de ortografia e que, por isso mesmo, n\u00e3o registra elis\u00f5es, degemina\u00e7\u00f5es, ditonga\u00e7\u00f5es e outros processos fonol\u00f3gicos eventualmente presentes. Desse modo, com o intuito de registrar apenas as reestrutura\u00e7\u00f5es resultantes do Pareamento M\u00e9trico, conv\u00e9m adotar como crit\u00e9rio metodol\u00f3gico uma etapa intermedi\u00e1ria, na qual todos os poss\u00edveis processos de s\u00e2ndi externo sejam realizados. Assim, por exemplo, reformular\u00edamos a transforma\u00e7\u00e3o (2a &gt; 2b) em (2a &gt; 2a\u2019 &gt; 2b).\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(2a)\u00a0 co\u00a0 mo de um fil me a a \u00e7\u00e3o que n\u00e3o va\u00a0 leu<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0| \u00a0 |\u00a0 \\ \/ \u00a0 | \u00a0 | \\ \/\u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 \u00a0 (processos fonol\u00f3gicos)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(2a\u2019) co\u00a0 mo dewm\u00a0 fil me\u00a0 a\u00a0 \u00e7\u00e3o que n\u00e3o va\u00a0 leu<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0(de um &gt; dewn) (a a\u00e7\u00e3o &gt; a\u00e7\u00e3o)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(2a\u2019) co\u00a0 mo dewm\u00a0 fil me\u00a0 a\u00a0 \u00e7\u00e3o que n\u00e3o va\u00a0 leu<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0| \u00a0 | \u00a0 |\u00a0 \u00a0 | \u00a0 \\ \/\u00a0 \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 \u00a0 (processos mel\u00f3dico-fonol\u00f3gicos)\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(2b)\u00a0 co\u00a0 mo dewm\u00a0 fil\u00a0 mja \u00a0 \u00e7\u00e3o que n\u00e3o va\u00a0 leu<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0| \u00a0 | \u00a0 |\u00a0 \u00a0 |\u00a0 \u00a0 | \u00a0 \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 | \u00a0 |<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0N \u00a0 N \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N\u00a0 \u00a0 N \u00a0 \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N \u00a0 N<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0#(filme a &gt; filmja)<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Essa diretriz \u00e9 necess\u00e1ria para, de um lado, depurarmos a an\u00e1lise, separando processos fonol\u00f3gicos de processos \u201cmel\u00f3dico-fonol\u00f3gicos\u201d. De fato, na an\u00e1lise da palavra cantada, interessa determinar e descrever o mais precisamente poss\u00edvel o ambiente extralingu\u00edstico (mel\u00f3dico, r\u00edtmico, harm\u00f4nico, etc.) que determina a realiza\u00e7\u00e3o ou o bloqueio de um processo fonol\u00f3gico.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Paralelamente, essa an\u00e1lise mostra qu\u00e3o imprecisa \u00e9 a terminologia musical que distingue melodia sil\u00e1bica, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">a song in which each syllable has but one note<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> de melodia melism\u00e1tica, <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">melody in which more than one tone is sung to a syllable<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> (HARTONG, 2007:160). Como mostramos, todas as melodias s\u00e3o sil\u00e1bicas, sem exce\u00e7\u00e3o, e a distin\u00e7\u00e3o entre melodias sil\u00e1bicas e melism\u00e1ticas diz respeito \u00e0 s\u00edlaba escrita e n\u00e3o \u00e0 s\u00edlaba efetivamente cantada.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><b>Conclus\u00e3o<\/b><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">Sumarizando o que vimos at\u00e9 aqui:<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(i) a palavra cantada pode apresentar constru\u00e7\u00f5es prosodicamente an\u00f4malas;<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(ii) tais constru\u00e7\u00f5es, que ocorrem como reestrutura\u00e7\u00f5es sil\u00e1bicas excepcionais, n\u00e3o s\u00e3o aceitas na fala, mas passam despercebidas quando cantadas;<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(iii) essas constru\u00e7\u00f5es podem ser adequadamente descritas se considerarmos a palavra cantada como a intera\u00e7\u00e3o de duas cadeias, sil\u00e1bica e mel\u00f3dica, cujos terminais s\u00e3o respectivamente a s\u00edlaba e a nota;<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(iv) a intera\u00e7\u00e3o entre essas cadeias \u00e9 regida pelo Pareamento M\u00e9trico, que estabelece a rela\u00e7\u00e3o bijetiva entre nota e s\u00edlaba;<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(v) a inviolabilidade dessa condi\u00e7\u00e3o de boa forma\u00e7\u00e3o revela-se na maneira sistem\u00e1tica pela qual processos fonol\u00f3gicos de reestrutura\u00e7\u00e3o sil\u00e1bica s\u00e3o bloqueados (quando deveriam se realizar) ou se realizam (quando deveriam ser bloqueados);<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(vi) as reestrutura\u00e7\u00f5es sil\u00e1bicas observadas na palavra cantada, embora manifestem-se superficialmente como processos fonol\u00f3gicos, devem ser consideradas processos mel\u00f3dico-fonol\u00f3gicos, caracter\u00edsticos da intera\u00e7\u00e3o entre a cadeia sil\u00e1bica e a melodia musical;<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">(vii) o ambiente para a ocorr\u00eancia dessas reestrutura\u00e7\u00f5es n\u00e3o \u00e9 lingu\u00edstico (fonol\u00f3gico, sint\u00e1tico, morfol\u00f3gico), mas musical.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Pareamento M\u00e9trico expressa a mais fundamental das condi\u00e7\u00f5es de boa forma\u00e7\u00e3o da palavra cantada. A condi\u00e7\u00e3o <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">sine qua non<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\"> para que a palavra cantada seja bem formada \u00e9 que a quantidade de terminais da cadeia sil\u00e1bica seja igual \u00e0 quantidade de terminais da cadeia mel\u00f3dica. Como essa condi\u00e7\u00e3o n\u00e3o admite exce\u00e7\u00f5es e se sobrep\u00f5e a qualquer outra condi\u00e7\u00e3o de natureza lingu\u00edstica, n\u00e3o \u00e9 raro que ocorram ressilabifica\u00e7\u00f5es estranhas ao portugu\u00eas, as quais, quando faladas, soam como constru\u00e7\u00f5es prosodicamente agramaticais. Vimos que essas constru\u00e7\u00f5es podem ser descritas pelas regras apague \u03c3 e insira \u03c3.<\/span><b>\u00a0<\/b><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">O Pareamento M\u00e9trico \u00e9 a mais b\u00e1sica condi\u00e7\u00e3o de boa forma\u00e7\u00e3o da palavra cantada porque seu dom\u00ednio restringe-se \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre notas e s\u00edlabas n\u00e3o especificadas. Evidentemente, a intera\u00e7\u00e3o entre m\u00fasica e fala vai al\u00e9m disso. S\u00edlabas s\u00e3o portadoras de acento prim\u00e1rio ou secund\u00e1rio, podem ser monoss\u00edlabos \u00e1tonos ou t\u00f4nicos, ou ainda, n\u00facleos de frases fonol\u00f3gicas. Por sua vez, sobre a nota incide um tempo forte ou fraco, ela pode ou n\u00e3o ser o n\u00facleo de um grupo r\u00edtmico, pode ou n\u00e3o desempenhar uma fun\u00e7\u00e3o harm\u00f4nica, e assim por diante. Em outras palavras, para al\u00e9m da rela\u00e7\u00e3o bijetiva estabelecida entre nota e s\u00edlaba, esses terminais interagem com outros elementos que lhes s\u00e3o hierarquicamente superiores. Mais do que isso, essas hierarquias parecem interagir entre si. Uma descri\u00e7\u00e3o dessa intera\u00e7\u00e3o ultrapassa em muito os limites deste ensaio e \u00e9 aqui mencionada apenas para destacarmos que o Pareamento M\u00e9trico e as regras dele derivadas conseguem explicar apenas uma pequena parte dos fen\u00f4menos lingu\u00edstico-mel\u00f3dicos observados na palavra cantada.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><b>REFER\u00caNCIAS<\/b><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">ABAURRE, M. B. M. Acento frasal e processos fonol\u00f3gicos segmentais. <\/span><b>Letras De Hoje<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, 31(2), 1996. Dispon\u00edvel em: https:\/\/revistaseletronicas.pucrs.br\/ojs\/index.php\/fale\/article\/view\/15591. Acesso em: 15 abr. 2020<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">ABOUSALH, E. <\/span><b>Resolu\u00e7\u00e3o de choques de acento no portugu\u00eas brasileiro<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">: elementos para uma reflex\u00e3o sobre a interface sintaxe-fonologia. Disserta\u00e7\u00e3o de mestrado. Campinas: Instituto de Estudos da Linguagem, 1997.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">BISOL, L. S\u00e2ndi externo: o processo e a varia\u00e7\u00e3o. <\/span><i><span style=\"font-weight: 400;\">In<\/span><\/i><span style=\"font-weight: 400;\">: KATO, M. A. (Org.) <\/span><b>Gram\u00e1tica do portugu\u00eas falado<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, Campinas: Ed. da UNICAMP, 2002. p. 53-97.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">BOLINGER, D. <\/span><b>Intonation and its Uses:<\/b> <span style=\"font-weight: 400;\">Melody in Grammar and Discourse. Stanford, CA: Stanford University Press, 1989.\u00a0<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">GOLDSMITH, J. <\/span><b>Autosegmental Phonology<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">. Tese de doutorado. Cambridge: MIT Press, 1976.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">HARTONG, J. L. <\/span><b>Musical Terms Worldwide<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">: <\/span><b>A Companion for the Musical Explorer<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">, The Hague: <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Semar Publishers,<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">2007.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">PIERREHUMBERT, J. <\/span><b>The phonology and phonetics of English intonation<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> &#8211; <\/span><span style=\"font-weight: 400;\">Tese de doutorado, Massachusetts, Massachusetts Institute of Technology, 1980.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><span style=\"font-weight: 400;\">WAUGH, Linda Ruth. <\/span><b>The melody of language<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">:<\/span> <span style=\"font-weight: 400;\">intonation and prosody<\/span><b>.<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Baltimore: University Park Press, 1980.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><b>TITLE<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">: ON THE RELATIONSHIPS BETWEEN SYLLABLES AND MUSICAL NOTES IN SUNG WORDS IN BRAZILIAN PORTUGUESE<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><b>ABSTRACT<\/b><span style=\"font-weight: 400;\">: Sung words often present prosodically ungrammatical structures. Such structures cannot be described exclusively on the basis of the linguistic environment in which they occur. Ungrammaticality manifests itself in the actualisation of phonological processes in environments in which such processes would be blocked and, conversely, in its blockage in environments in which their actualisation would be expected. The aim of this paper is to describe this behaviour of sung words that contrasts with that of spoken words. We shall initially introduce examples that illustrate the extent of the problem as well as its ubiquity. Next, we shall argue that the observed ungrammaticality can be explained on the hypothesis that the correspondence between text and melody in sung words is regulated by well-formed conditions. One of these conditions \u2013which we call Metrical Pairing\u2013 establishes that the relationship between note and syllable is always bijective, that is (i) each and every note in a melody must be assigned to one and only one syllable, and (ii) each and every syllable in a string must be paired with one and only one note. The observance of this condition for well-formedness of sung words explains both the actualisation and the blockage of phonological processes that diverge from the phonology of spoken Portuguese.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p><b>KEYWORDS:<\/b><span style=\"font-weight: 400;\"> Resyllabification; Phonological process; Melody; Sung music; Prosody.<\/span><\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n\r\n\r\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\r\n\r\n\r\n<h4 class=\"wp-block-heading\">\u00f5es Pros\u00f3dicas<\/h4>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Palavra cantada \u00e9 a superposi\u00e7\u00e3o de duas estruturas n\u00e3o-isom\u00f3rficas, uma pros\u00f3dica e outra mel\u00f3dica. Desta superposi\u00e7\u00e3o decorrem dois tipos de interfer\u00eancia:<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<ol class=\"wp-block-list\">\r\n<li><br \/>\r\n<p lang=\"pt-BR\" align=\"JUSTIFY\">uma perturba\u00e7\u00e3o da cadeia mel\u00f3dica em fun\u00e7\u00e3o da press\u00e3o exercida pela estrutura pros\u00f3dica ou;<\/p>\r\n<\/li>\r\n\r\n\r\n\r\n<li><br \/>\r\n<p lang=\"pt-BR\" align=\"JUSTIFY\">uma perturba\u00e7\u00e3o pros\u00f3dica que encontra sua causa na estrutura mel\u00f3dica.<\/p>\r\n<\/li>\r\n<\/ol>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Em fun\u00e7\u00e3o destas perturba\u00e7\u00f5es o cancionista &#8220;ajusta&#8221; texto e melodia de modo a satisfazer \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de boa forma\u00e7\u00e3o da palavra cantada. Tal ajuste \u00e9 feito mediante o <em>alinhamento<\/em> ou a <em>associa\u00e7\u00e3o<\/em> entre unidades mel\u00f3dicas e unidades lingu\u00edsticas. Estes processos deixam vest\u00edgios na forma de perturba\u00e7\u00f5es r\u00edtmicas que afetam os processos fonol\u00f3gicos (elis\u00e3o, degemina\u00e7\u00e3o, etc) \u2013 que podem ou n\u00e3o ser conformes com a gram\u00e1tica do portugu\u00eas brasileiro \u2013, ou, ent\u00e3o, na forma de processos estranhos \u00e0 l\u00edngua (ep\u00eantese sil\u00e1bica, por exemplo).<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Assim, em <em>Samba do Arnesto<\/em> (Adoniran Barbosa) ocorre uma reestrutura\u00e7\u00e3o dos constituintes pros\u00f3dicos nos tr\u00eas primeiros versos que n\u00e3o se conforma \u00e0s regras de reestrutura\u00e7\u00e3o do Portugu\u00eas Brasileiro (doravante PB)<a href=\"#sdfootnote1sym\"><sup>1<\/sup><\/a>.<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>&lt;032.01-03&gt;<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>O Arnesto<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Nos convid\u00f4 pra um samba<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Ele mora no Braz<\/p>\r\n\r\n\r\n\r\n<p>Do ponto de vista lingu\u00edstico, \u00e9 poss\u00edvel analisar a sequ\u00eancia como sendo constitu\u00edda de cinco frases fonol\u00f3gicas distribu\u00eddas em duas frases entoacionais separadas por uma pausa, O Arnesto nos convid<\/p>\r\n\r\n\r\n<ol class=\"wp-block-footnotes\"><li id=\"376517b5-14a7-445c-b765-852b433eb155\">BISOL<span style=\"font-weight: 400;\">, 2002:66<\/span> <a href=\"#376517b5-14a7-445c-b765-852b433eb155-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 1 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"64f93c6d-c39e-4c20-8465-90f0f5364ae7\"><span style=\"font-weight: 400;\">ABAURRE, 1996<\/span> <a href=\"#64f93c6d-c39e-4c20-8465-90f0f5364ae7-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 2 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><li id=\"3ab8db4e-6cda-4d48-97b5-f5dc8af41308\"><span style=\"font-weight: 400;\">JAKOBSON, 1985:127-128<\/span> <a href=\"#3ab8db4e-6cda-4d48-97b5-f5dc8af41308-link\" aria-label=\"Ir para a refer\u00eancia 3 na nota de rodap\u00e9\">\u21a9\ufe0e<\/a><\/li><\/ol>\r\n\r\n\r\n<p>&nbsp;<\/p>\r\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. PAREAMENTO M\u00c9TRICO &nbsp; 1.1 Anomalias pros\u00f3dicas N\u00e3o \u00e9 raro encontrar em meio aos versos de uma can\u00e7\u00e3o popular constru\u00e7\u00f5es estranhas \u00e0 pros\u00f3dia do portugu\u00eas. Ainda que soem antinaturais quando faladas, tais constru\u00e7\u00f5es parecem passar despercebidas quando cantadas. Em Rouxinol, por exemplo, Gilberto Gil canta o verso &#8220;Tratei da sua asa&#8221; (559.12a) com uma degemina\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":0,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":"[{\"content\":\"BISOL<span style=\\\"font-weight: 400;\\\">, 2002:66<\/span>\",\"id\":\"376517b5-14a7-445c-b765-852b433eb155\"},{\"content\":\"<span style=\\\"font-weight: 400;\\\">ABAURRE, 1996<\/span>\",\"id\":\"64f93c6d-c39e-4c20-8465-90f0f5364ae7\"},{\"content\":\"<span style=\\\"font-weight: 400;\\\">JAKOBSON, 1985:127-128<\/span>\",\"id\":\"3ab8db4e-6cda-4d48-97b5-f5dc8af41308\"}]"},"class_list":["post-393","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/393","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=393"}],"version-history":[{"count":103,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/393\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1992,"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/393\/revisions\/1992"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/carmojr.com\/palavracantada\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=393"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}